Sexta-feira, 12 de fevereiro, A Helena de Machado de Assis
Assis, Machado de, 1839-1908. Título: Helena. Editor: Rio de Janeiro: B. L. Garnier, Livreiro-Editor do Instituto Histórico Brasileiro
Escrevo neste dia em que a fase em que me encontro é, paradoxalmente, salutar. Estou fora de casa, acompanhando meu marido na recuperação de um infarto, e digo que Machado de Assis tem me ajudado a compreender alguns dos dramas que atravessamos. Acho que é isso que sua literatura faz conosco: projeta aquilo que vivemos sem ainda saber classificar, categorizar, apenas sentimos o que sentimos.
Em Helena, terceiro romance do autor, publicado em 1876, Helena e Estácio vivem um drama constituído por silêncios ouvidos pelo leitor, silêncios que produzem sentidos, desejos e convenções sociais. Narrado em terceira pessoa, o romance apresenta momentos em que o narrador parece se aproximar do leitor, chamando sua atenção para um detalhe, uma fala, uma situação; um recurso característico da escrita machadiana, que sutilmente nos conduz aos subentendidos, e aqui me lembro da obra de Voloschinov, Palavra na vida e na poesia.
A personagem Helena, construída ainda na chamada primeira fase do autor, é instigante. Gostei muito dela. Uma jovem que sabe o que quer, que impõe suas vontades e desejos, mas que também, em certos momentos, os recolhe. Tranca-se no quarto, silencia, chora — e depois retorna à cena social, assumindo as posições que julga convenientes. Há nela força calculada por outra helena, mas também vulnerabilidade. Essa oscilação a torna profundamente humana. Vejo não uma Helena, mas uma dupla, Helena e Helena. Aqui vejo o autor e herói na atividade estética do Bakhtin.
Estácio, por sua vez, encarna traços do homem do século XIX, carregado por valores patriarcais. Busca exercer controle sobre as mulheres ao seu redor — Úrsula, Eugênia (com quem pretende se casar) e a própria Helena, por quem se sente perturbado, incapaz de compreender exatamente o que ela lhe desperta. Sua inquietação revela mais sobre suas próprias contradições do que sobre Helena.
Helena integra a primeira fase da obra de Machado, marcada por um tom mais romântico e melancólico. Ainda assim, já se percebem as sementes do olhar crítico que se aprofundará depois. Os diálogos, muitas vezes, parecem verdadeiras batalhas de palavras, arenas em que contradições e ambiguidades são expostas com elegância e ironia.
Talvez seja isso que me acompanha neste momento da vida: perceber que os dramas humanos — amorosos, familiares ou existenciais — não são lineares. Não obedecem à lógica cartesiana nem às explicações que a biologia ou a medicina conseguem oferecer. São feitos de camadas invisíveis, de tensões que habitam os lugares mais subterrâneos da alma humana.
Eu e Helena do Machado de Assis.
Como Helena, de Machado de Assis, às vezes nos recolhemos; em outras, voltamos ao mundo sendo aquilo que somos a partir da leitura que fazemos da realidade — uma leitura por vezes recortada, estereotipada, incompleta, mas ainda assim comprometida conosco.
Há, nesse movimento, o reconhecimento de uma ambiguidade constitutiva: não somos inteiras nem coerentes o tempo todo. Somos feitas de contradições que revelam e ocultam. E talvez a maturidade consista menos em resolver esses dramas e mais em aprender a habitá-los.
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Maria Natalina de Oliveira Farias, Doutoranda em Educação – FE/PPGE – Grubakh/Gepec

