A Faculdade de Educação da Unicamp realizou, no dia 16 de abril, o evento Abril Indígena na FE: A experiência da pluriversidade, reunindo estudantes, docentes e comunidade externa em torno de um debate sobre os modos de ser e de conhecer na universidade e suas tensões com os saberes indígenas. A programação incluiu, à tarde, a mesa “Modos de ser / modos de conhecer: encontros e tensões entre conhecimentos na Unicamp” e, no início da noite, o lançamento do livro Jardim dos Saberes Ancestrais: território vivo, organizado pelas professoras Alik Wunder, Malu Arruda e Patrícia Veiga.

Entre tensões e transformações
Realizada no Auditório Maurício Tragtenberg, a mesa de debate mediada pelo professor Marco Tobón destacou os desafios de construir uma universidade mais plural, diversa e aberta a diferentes formas de conhecimento. Logo na abertura, foi ressaltado que o encontro entre saberes não se dá de forma harmônica, mas permeado por disputas, desigualdades e processos históricos de exclusão.
A estudante de Arquitetura e Urbanismo Angelina Walípere, representante do Coletivo de Acadêmicos Indígenas da Unicamp, enfatizou que a universidade “não é neutra” e foi historicamente estruturada a partir de uma lógica que excluiu povos indígenas. Em sua fala, ela trouxe experiências concretas de racismo, isolamento e dificuldades de permanência, destacando que a presença indígena no ensino superior é resultado de luta e continua sendo um processo em construção.
Ao abordar sua trajetória acadêmica, Angelina, do povo Baniwa, também chamou a atenção para a desvalorização de conhecimentos indígenas em áreas como a arquitetura, contrapondo a lógica técnica dominante a modos de construção baseados na relação com o território e a natureza. Para ela, a pluriversidade só se realiza quando diferentes formas de existir e conhecer podem coexistir com respeito.
O egresso Luís Medina, do povo Guarani, ampliou a reflexão ao questionar os limites das políticas de inclusão. Para ele, o desafio não é apenas garantir o acesso, mas redefinir o próprio projeto de universidade. “A universidade, do jeito que está organizada, é muitas vezes um lugar de desconexão com a vida”, afirmou, ao criticar estruturas burocráticas e modelos de conhecimento que seguem distantes das realidades indígenas.


A universidade em questão
As professoras participantes da mesa também destacaram que as transformações em curso na Unicamp estão diretamente ligadas às lutas estudantis e aos movimentos sociais. A criação das políticas de cotas, por exemplo, foi apontada como um marco importante, mas ainda insuficiente diante dos desafios de permanência e acolhimento.
A professora Alik Wunder ressaltou que a chegada de estudantes indígenas evidenciou o despreparo institucional para lidar com a diversidade de experiências e saberes. Segundo ela, não se trata apenas de adaptar estruturas existentes, mas de repensar profundamente os modos de convivência, ensino e produção de conhecimento na universidade. Nesse contexto, iniciativas como a Comissão Assessora para Inclusão Acadêmica e Participação dos Povos Indígenas (Caiapi) foram destacadas como espaços importantes de construção coletiva, ainda que marcados por tensões e limitações institucionais.


O Jardim como experiência de pluriversidade
Às 18h, no Jardim dos Saberes Ancestrais, o público acompanhou o lançamento do livro Jardim dos Saberes Ancestrais: território vivo, publicado pela Editora FE-Unicamp. A obra registra e amplia a experiência do jardim, espaço criado de forma coletiva na FE a partir da convivência entre estudantes, docentes e diferentes comunidades.
Mais do que um livro sobre o jardim, a publicação nasce do próprio processo de criação do espaço. Durante as pinturas dos troncos, realizadas em 2024, estudantes compartilharam os significados dos grafismos e das escolhas estéticas, dando origem à ideia de registrar essas narrativas em formato editorial.
A obra reúne textos, imagens e relatos que expressam diferentes ancestralidades e modos de conhecer, organizados a partir dos chamados “troncos”, que representam povos, cosmologias e experiências diversas. Ao valorizar essas formas de expressão, o livro propõe uma ampliação do próprio conceito de conhecimento, incorporando dimensões corporais, imagéticas e comunitárias.


Aprender com o território
Um dos eixos centrais tanto do livro quanto do jardim é a noção de aprendizagem como experiência coletiva e situada. Inspirada em práticas indígenas e quilombolas, essa perspectiva rompe com a separação entre teoria e prática e com a hierarquização das linguagens, valorizando o aprender na convivência, na escuta e na criação compartilhada .
A própria construção do jardim reflete esse princípio. O espaço surgiu a partir de encontros semanais ao ar livre durante a pandemia, quando estudantes e professoras passaram a observar o ambiente, imaginar possibilidades e, gradualmente, transformar o local em um espaço de descanso, convivência e aprendizagem.
Nesse processo, o território deixou de ser apenas um cenário para se tornar um elemento ativo da experiência educativa. Conforme relatou a professora Malu Arruda, a relação com árvores, animais, luz, vento e sons foi fundamental para a elaboração do projeto, evidenciando uma compreensão do espaço como “corpo vivo”, em constante interação com aqueles que o habitam.
Um espaço em permanente ativação
Mais do que uma obra concluída, o Jardim dos Saberes Ancestrais se apresenta como um espaço em permanente construção. A proposta, segundo as organizadoras, é que o local seja continuamente ativado por diferentes iniciativas — aulas, oficinas, rodas de conversa, contação de histórias e projetos de extensão.
Essa ideia de “ativação” aponta para uma transformação mais ampla na forma de pensar a universidade. Ao integrar descanso, convivência e aprendizagem, o jardim questiona modelos produtivistas e abre espaço para outras formas de relação com o conhecimento.
Entre os desdobramentos do projeto já em curso estão a criação de materiais acessíveis, como audiodescrição do livro, e o desenvolvimento de atividades voltadas a diferentes públicos, incluindo crianças e escolas. A expectativa é que o espaço continue sendo apropriado pela comunidade universitária e externa, ampliando seus usos e significados.
Presença que transforma
Ao longo do evento, ficou evidente que a presença indígena na universidade não apenas tensiona estruturas existentes, mas também produz novas formas de pensar e viver o espaço acadêmico. Seja nas falas da mesa, seja na experiência do jardim, o que se coloca é a necessidade de construir uma universidade capaz de acolher múltiplos mundos.
Nesse sentido, o Abril Indígena na FE-Unicamp reafirma a importância de iniciativas que vão além da inclusão formal, promovendo encontros reais entre diferentes modos de ser e de conhecer — ainda que marcados por conflitos, negociações e aprendizados contínuos.
Serviço
O livro Jardim dos Saberes Ancestrais: território vivo está disponível para download gratuito no site da Editora FE-Unicamp:
https://editora.fe.unicamp.br/index.php/fe/catalog/book/jardim-saberes
