Inaugurado no Salão Nobre da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o painel-mural “Aquilombar a Universidade: 10 anos de lutas por cotas na Unicamp”, financiado por meio do Edital DCult de Seleção de Projetos de Arte e Cultura 2025/2026, transformou memória em reflexão pública sobre um dos processos mais importantes da história recente da universidade brasileira: a ampliação do acesso ao ensino superior por meio das ações afirmativas.
A iniciativa reuniu estudantes, docentes, servidores técnico-administrativos, movimentos sociais, artistas e gestores para celebrar uma década das mobilizações que culminaram na aprovação das cotas étnico-raciais na Unicamp e discutir seus efeitos sobre a democratização do acesso, a diversidade acadêmica e a produção de conhecimento. O evento ocorreu em um momento marcado por manifestações em defesa da educação pública em São Paulo, debates sobre financiamento universitário, permanência estudantil e valorização das instituições públicas de ensino e pesquisa.
Além de recordar um marco histórico, a inauguração buscou demonstrar como a presença de novos perfis na universidade alterou não apenas os indicadores de ingresso, mas também os temas de pesquisa, as perspectivas epistemológicas e as formas de produzir ciência. O painel, produzido pela artista visual Sabrina Saviani, que atuou firmemente nas manifestações de 2016 pelas políticas de cota, propõe justamente essa reflexão: a inclusão não é apenas uma política de acesso, mas um processo contínuo de transformação institucional, científica e social.
A programação foi aberta pela intervenção artística Abre Caminhos, conduzida pelos artistas Doroti Martz e Cris Monteiro. Utilizando referências à ancestralidade afro-brasileira, a apresentação estabeleceu uma conexão simbólica entre a luta histórica dos povos negros e a ocupação dos espaços universitários.
“Foi com a espada de Ogum que todos e todas que vieram antes de nós abriram um caminho para aqui pisar e para ocupar tantos outros espaços”, destacou Doroti durante a apresentação, ao relacionar a trajetória das ações afirmativas à resistência histórica da população negra.
Das ruas e ocupações à mudança institucional
Embora a Lei Federal nº 12.711, conhecida como Lei de Cotas, tenha sido sancionada em 2012 para as universidades federais, o debate sobre ações afirmativas já mobilizava a comunidade acadêmica brasileira há décadas. A legislação estabeleceu reserva de vagas para estudantes oriundos da escola pública, com critérios de renda e raça, tornando-se uma das mais abrangentes políticas de inclusão educacional do mundo. Em 2023, a lei foi ampliada para incluir estudantes quilombolas e aperfeiçoar mecanismos de acesso e permanência.
Experiências semelhantes existem em países como Estados Unidos, Índia, África do Sul e Canadá, ainda que sob formatos distintos. No Brasil, porém, a política adquiriu uma dimensão singular ao combinar critérios raciais e socioeconômicos em escala nacional.


Representando a Diretoria de Cultura (DCult) da Unicamp, em nome da Pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura, Profa. Dra. Silvia Furegatti, o Diretor de Cultura, Prof. Dr. Eduardo Okamoto, ressaltou que a celebração dos dez anos das lutas por cotas raciais também evidencia transformações profundas na própria universidade. Ao comentar a inauguração do mural, ele destacou a importância da arte pública como espaço de encontro, diálogo e reflexão coletiva, especialmente em um contexto em que a vida universitária enfrenta desafios para ocupar e vivenciar os espaços comuns.
Okamoto também enfatizou o papel das políticas culturais e dos editais públicos no incentivo a iniciativas que preservam a memória institucional e promovem debates relevantes para a sociedade, como o edital da DCult. Para ele, contudo, o legado das cotas ultrapassa a ampliação do acesso ao ensino superior. “Quando a Unicamp implementa cotas, ela está prestando um serviço não só à sociedade brasileira, mas a si mesma. Ela está atualizando a sua própria razão de existir, que é a produção do conhecimento”, reforçou.
Segundo o diretor de Cultura, a diversidade amplia perspectivas, provoca novos questionamentos e fortalece a construção do conhecimento ao possibilitar o encontro entre diferentes experiências, trajetórias e visões de mundo. Ele também destacou que iniciativas como o painel-mural contribuem para preservar memórias coletivas que, muitas vezes, não aparecem nos registros institucionais tradicionais.
Ao relacionar cultura, educação e democracia, Okamoto ressaltou que a universidade tem a responsabilidade de reconhecer os processos sociais que transformaram sua própria história. Nesse sentido, a celebração dos dez anos das lutas por cotas não se restringe à recordação de um marco político, mas reafirma o compromisso da instituição com a ampliação do acesso ao conhecimento e com a valorização da diversidade como elemento constitutivo da produção científica contemporânea.
Na Unicamp, a aprovação das cotas raciais ocorreu em 2017, após um longo processo de mobilização que teve como ponto de inflexão as greves e ocupações de 2016. Durante a cerimônia, a diretora da Faculdade de Educação, Profa. Dra. Débora Jeffrey, relembrou que a luta foi marcada por tensões políticas e resistência institucional. “Hoje estamos comemorando esses dez anos, mas esse não foi um caminho tranquilo”, relembrou.
Ela relatou que a greve de 2016 representou um divisor de águas para a universidade. “Esse movimento começou aqui na Faculdade de Educação, com a ocupação organizada pelos estudantes e pela Frente Pró-Cotas. Foi um marco que ajudou a transformar a universidade”, ressaltou.
Ao reconstruir a trajetória das mobilizações, Jeffrey lembrou que o processo que culminou na aprovação das cotas em 2017 não começou naquele ano. Segundo ela, a ocupação da Faculdade de Educação, iniciada em março de 2016, tornou-se um marco na articulação das pautas antirracistas dentro da universidade e dialogava diretamente com o ciclo de ocupações de escolas públicas protagonizado por estudantes secundaristas em 2015. Para a diretora, compreender esse contexto é fundamental para entender como a pauta das ações afirmativas deixou de ser uma reivindicação de grupos específicos para se tornar um debate institucional que mobilizou toda a comunidade universitária.
A presidenta da Associação dos Docentes da Unicamp (Adunicamp), Profa. Dra. Silvia Gatti, destacou que a conquista das cotas deve ser compreendida como resultado de uma construção coletiva. “Se essa mesa existisse há dez anos, ela teria outra composição, outra cor e outra representação. A própria diversidade que vemos aqui (hoje) já demonstra a transformação que a universidade viveu nesse período”, observou, ao enfatizar a importância da mobilização de estudantes, docentes, servidores técnicos-administrativos e movimentos sociais para a consolidação das ações afirmativas.
A diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), Marli Armelin, reforçou que a luta pelas cotas foi construída também por trabalhadoras e trabalhadores da universidade. Servidora da instituição desde 2004 e formada em Pedagogia pela própria Faculdade de Educação por meio do Programa de Formação de Servidores (ProESP), ela relembrou que participou das primeiras comissões de heteroidentificação da universidade, ainda quando o trabalho era realizado de forma voluntária.
“Não foi um caminho fácil. Foi um caminho de muitas pedras e obstáculos. Mas hoje estar aqui e ver como a cara dessa universidade mudou, com tantas pessoas negras e indígenas ocupando esses espaços, é motivo de orgulho”, afirmou.
Marli destacou ainda que os avanços conquistados ao longo da última década precisam ser acompanhados de investimentos permanentes em assistência estudantil. Para ela, o desafio da inclusão não termina com o ingresso dos estudantes. “Não basta fazer as cotas e trazer essas pessoas para cá. É preciso garantir condições para que elas permaneçam e concluam sua formação”, ressaltou.
Também presente na mesa de abertura, a coordenadora-geral da Associação de Pós-Graduandos (APG), Carolina Galina, apresentou um panorama das ações afirmativas na pós-graduação da Unicamp. Segundo ela, atualmente 76 programas de pós-graduação já possuem algum tipo de política afirmativa, o que representa aproximadamente 90% dos programas da universidade.
Galina explicou que a Comissão Central de Pós-Graduação (CCPG) vem realizando um processo de avaliação dessas políticas e cobrando avanços nos programas que ainda não adotaram ações afirmativas. “A diversidade fortalece a produção científica e amplia as possibilidades de construção do conhecimento. Precisamos avançar para que todos os programas assumam esse compromisso”, afirmou.
A representante discente também defendeu a ampliação das ações afirmativas para pessoas trans e pessoas com deficiência na pós-graduação e destacou a importância da mobilização estudantil na continuidade desse processo. Para ela, o mural inaugurado pela Faculdade de Educação cumpre um papel pedagógico ao lembrar diariamente quem construiu essas conquistas e quais espaços ainda precisam ser ocupados.
Os números da transformação
Dados apresentados pelo Diretor da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), Prof. Dr. José Alves de Freitas Neto, representando o Magnífico Reitor da Unicamp, Prof. Dr. Paulo Cesar Montagner, evidenciam a mudança ocorrida após a implantação das cotas.
Antes da política de cotas, estudantes pretos, pardos e indígenas representavam cerca de 13% a 14% dos ingressantes da universidade. Atualmente, esse percentual alcança aproximadamente 33% dos ingressantes, de acordo com dados do vestibular mais recente.
O crescimento também pode ser observado entre os estudantes indígenas. Antes da adoção das ações afirmativas específicas, a presença indígena era mínima. Hoje, cerca de 100 estudantes indígenas ingressam anualmente na universidade, resultado da criação do Vestibular Indígena da Unicamp.
Para Freitas Neto, os números representam apenas uma dimensão da mudança produzida pelas ações afirmativas. “Uma universidade não pode virar as costas para a população do seu próprio país. A universidade só ganhou nesses últimos anos. Minha sala de aula ficou mais instigante e mais desafiadora. Os estudantes que chegaram pela política de cotas trouxeram novas questões epistêmicas, novos autores e novos debates”, afirmou.
Segundo ele, os resultados também desmontam previsões feitas por setores que se opunham às ações afirmativas. “O que vemos hoje é exatamente o oposto do que previam os críticos das cotas. É possível fazer universidade de excelência com políticas de inclusão para valer”, ressaltou.
Diversidade e qualidade acadêmica caminham juntas
Estudos nacionais têm corroborado essa avaliação. Pesquisas realizadas pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e por diversas universidades brasileiras demonstram que estudantes ingressantes por ações afirmativas apresentam desempenho acadêmico semelhante ao dos demais estudantes e, em muitos casos, registram taxas equivalentes ou superiores de conclusão de curso.
Além disso, levantamentos apontam que a maior parte dos beneficiários das políticas de cotas pertence a famílias de baixa renda, sendo frequentemente a primeira geração da família a acessar o ensino superior.
Durante o evento, diferentes participantes ressaltaram que a ampliação da diversidade alterou a própria agenda universitária. O historiador e militante do movimento negro e doutorando em Antropologia (IFCH-Unicamp), Me. Bruno Nzinga, um dos entrevistados do documentário produzido para a ocasião, destacou que a conquista das cotas modificou não apenas a composição social da universidade, mas também suas prioridades. “Não é só a cara da universidade que muda. É também o pensamento da universidade que muda e as prioridades da universidade mudam”, afirmou.

Segundo ele, a presença de estudantes negros, indígenas e de outros grupos historicamente excluídos ampliou os temas de pesquisa e os referenciais teóricos mobilizados na produção científica. “A universidade vem se adaptando muito a nós, mas ainda se adapta lentamente. As cotas abriram espaço para que outras questões passassem a ser consideradas relevantes dentro da produção do conhecimento”, observou.
Para o Me. José Victor Alves Silva, doutorando em Filosofia do Grupo de Estudos de Filosofias Africanas e Afrodiaspóricas (IFCH-Unicamp), a história das cotas também precisa ser compreendida a partir das trajetórias individuais transformadas pelo acesso à universidade. “As pessoas têm que ter oportunidade de fazer aquilo que elas gostam. Eu tenho orgulho da minha trajetória e de poder estar hoje fazendo doutorado em Filosofia”, afirmou, ao destacar que a democratização do ensino superior representa também uma ampliação das possibilidades de vida e de produção de conhecimento para populações historicamente excluídas.

Permanência: o desafio da próxima década
Se o acesso representa uma conquista consolidada, a permanência estudantil permanece como um dos principais desafios apontados pelos participantes. E isso não é redundância!
A diretora do STU, Marli Armelin, destacou que a universidade se tornou mais diversa, mas ainda precisa avançar nas condições que garantam a continuidade da trajetória acadêmica desses estudantes. “Não basta fazer as cotas e trazer essas pessoas para cá. É preciso olhar para a permanência estudantil. Esse é um desafio que exige atenção permanente da universidade”, afirmou.
A coordenadora-geral da APG, Carolina Gallina, destacou que a ampliação do acesso precisa ser acompanhada pelo fortalecimento das políticas de permanência e pela expansão das ações afirmativas para novos grupos.
Segundo ela, atualmente 76 programas de pós-graduação da Unicamp já possuem algum tipo de ação afirmativa, o que representa cerca de 90% dos programas existentes. Ainda assim, alguns programas ainda não implementaram políticas de inclusão. “Agora na graduação a gente já possui ações afirmativas para pessoas trans e pessoas com deficiência. Isso também precisa avançar na pós-graduação”, ressaltou.
A estudante indígena May Arapiun, ingressante pelo Vestibular Indígena da Unicamp, reforçou a importância das políticas de permanência para estudantes que deixam seus territórios de origem para estudar. “Nós fomos o coletivo que apoiou diretamente a greve porque isso impacta diretamente nós, alunos bolsistas, que viemos de muito longe e lutamos para permanecer aqui dentro da universidade”, declarou.
A estudante de Pedagogia Ellen Alves Menezes, integrante do Centro Acadêmico Marielle Franco (CAPMF), lembrou que as conquistas atuais são resultado de mobilização contínua. “As cotas não foram um processo dado nem um processo fácil. Foi um processo de muita luta e de muita força coletiva”, reforçou.
Para ela, os debates atuais sobre permanência estudantil mantêm viva a agenda construída há uma década. “Se hoje a gente está em greve, é para que os estudantes possam permanecer além de acessar a universidade”.



Novas políticas, novos sujeitos e novas formas de pertencimento
A ampliação das ações afirmativas também impulsionou o surgimento e o fortalecimento de coletivos, núcleos de representação e redes de apoio dentro da universidade. Durante o evento, a pós-graduanda da Faculdade de Educação Manuela Queiroz de Souza, integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Política e Avaliação Educacional (Gepale), destacou que a mesa de debates foi concebida justamente para reunir diferentes gerações de estudantes, pesquisadores e militantes que participaram da construção das políticas afirmativas na Unicamp ao longo da última década. Segundo ela, a proposta foi evidenciar que a conquista das cotas não se encerra no acesso à universidade, mas se desdobra em novas formas de organização coletiva, produção de conhecimento e luta por direitos.
Essa ampliação das pautas foi ressaltada pelo bacharel em Química pela Unicamp Alu Laurindo Vieira, doutorando do Programa de Pós-Graduação Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática (Pecim) e um dos coordenadores do Núcleo de Consciência Trans (NCT). Ao relembrar sua trajetória de militância, ele destacou que a organização estudantil em defesa da permanência já estava presente antes mesmo da implementação das cotas raciais.
“O NCT nasce de uma ocupação na moradia estudantil, em 2012. Foi um processo difícil, mas desde o início entendíamos que não bastava discutir apenas o acesso; era preciso pensar também na permanência”, afirmou. Segundo Alu, a experiência acumulada ao longo dos anos foi fundamental para a construção de novas políticas afirmativas.
“Quando aprovamos as cotas trans, sabíamos que enfrentaríamos muitos desafios, mas precisávamos seguir. Aprendemos muito com os erros e acertos dos processos de 2016 e continuamos trabalhando para avançar, mesmo diante das resistências que ainda existem dentro da universidade. Na Faculdade de Educação encontramos apoio para continuar essa luta”, destacou.


A estudante Laura da Silva Santos, integrante do CAPMF e do Coletivo Arvoredo Negro, ressaltou que a realização do evento também cumpriu um papel importante de preservação da memória institucional. Para ela, registrar os relatos dos participantes e reunir diferentes gerações de ativistas contribui para que a comunidade universitária compreenda a dimensão histórica das transformações ocorridas após a implementação das cotas e reconheça o papel da mobilização coletiva na construção de uma universidade mais diversa e democrática.
“Foi um momento de muito aprendizado com todas as pessoas que participaram das gravações e entrevistas. A gente pôde conhecer trajetórias que ajudam a entender como essa luta ultrapassa os muros da universidade e se conecta ao movimento negro de Campinas e da região”, disse Laura.
Representando o CAPMF, a estudante Ellen Alves Menezes relembrou que pertence à primeira geração de estudantes beneficiados pelas cotas raciais na graduação da Unicamp.
“Eu vi os meus veteranos lutando para que eu pudesse ocupar esse espaço. As cotas não foram um processo dado nem um processo fácil. Foi um processo de muita luta e de muita força coletiva”, afirmou.
Para Ellen, as mobilizações atuais pela permanência estudantil mantêm vivo o legado das ocupações e greves que marcaram o ano de 2016. “Se hoje a gente está em greve, é para que os estudantes possam permanecer além de acessar a universidade”, ressaltou.
A estudante May Arapiun, do povo Arapiun, ingressante no curso de Educação Física, pelo Vestibular Indígena da Unicamp, destacou a importância das redes de acolhimento construídas entre estudantes indígenas e negros. Ela lembrou que o Vestibular Indígena, criado em 2019, ampliou significativamente a presença indígena na universidade e permitiu a formação de novos coletivos voltados à permanência estudantil.
“Nós fomos o coletivo que apoiou diretamente a greve porque isso impacta diretamente nós, alunos bolsistas, que viemos de muito longe e lutamos para permanecer aqui dentro da universidade”, declarou.
O debate também abordou os avanços recentes relacionados às políticas voltadas à população trans, travesti e não binária e às pessoas com deficiência. Representantes do Coletivo Anticapacitista Adriana Dias (CoAAD) e do NCT destacaram que a aprovação das cotas para pessoas com deficiência e trans representou uma conquista histórica, mas que o acesso precisa ser acompanhado por políticas efetivas de permanência, acessibilidade e acolhimento institucional.
Nesse contexto, foram apresentadas iniciativas como o cursinho popular Agnes Lemos, criado para ampliar o acesso de pessoas trans ao ensino superior, além de ações de formação e articulação promovidas por estudantes e pesquisadores da universidade.
O estudante Vitor Santos Correia, integrante do Aquilomba Fórum e do CoAAD, destacou que a construção das políticas afirmativas na Unicamp sempre esteve associada à articulação entre diferentes segmentos da comunidade universitária. Segundo ele, a mobilização conjunta entre estudantes e trabalhadores foi fundamental para ampliar o debate sobre inclusão e garantir que outras formas de diversidade também passassem a ser contempladas pelas políticas institucionais.
“As cotas raciais abriram caminhos para que outras pautas também ganhassem visibilidade dentro da universidade. Elas foram a mãe de várias outras políticas afirmativas que vieram depois”, afirmou.
Vitor ressaltou que, apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, ainda existem desafios significativos relacionados à acessibilidade e à permanência de pessoas com deficiência e neurodivergentes. “A universidade avançou na criação de políticas de acesso, mas ainda convivemos com barreiras arquitetônicas, atitudinais e metodológicas. Muitas reivindicações apresentadas em 2023, como melhorias na acessibilidade dos espaços e serviços universitários, ainda caminham lentamente”, observou.
Para ele, as mobilizações atuais representam uma continuidade das lutas iniciadas em 2016. “Estamos vivendo um momento de continuidade e renovação. As conquistas obtidas naquele período permitiram que hoje possamos discutir novas políticas públicas e novas formas de inclusão. O desafio agora é garantir que essas políticas sejam efetivamente implementadas e alcancem todas as pessoas que delas necessitam”, concluiu.

Já o Me. Robson Sampaio, doutorando da Faculdade de Educação, reiterou que a história das cotas precisa ser compreendida como resultado de uma longa trajetória coletiva construída por movimentos negros, sindicatos, coletivos estudantis e pesquisadores comprometidos com a democratização do ensino superior.
Ao recuperar episódios que antecederam a aprovação das cotas, Me. Sampaio ressaltou que a luta pela inclusão racial enfrentou resistências institucionais significativas e exigiu a atuação contínua de diferentes gerações de estudantes.
“Ainda hoje são, em grande medida, estudantes negros, indígenas, trans, travestis e pessoas com deficiência que seguem assumindo a linha de frente dessas discussões. O desafio é transformar essa pauta em responsabilidade coletiva de toda a universidade”, afirmou.
A própria realização do painel-mural materializa esse processo de construção coletiva. A iniciativa foi contemplada pelo Edital de Seleção de Projetos de Arte e Cultura 2025/2026 da DCult-Unicamp, programa voltado ao apoio de ações artístico-culturais comprometidas com diversidade, cidadania e transformação social.
A proposta foi concebida e inscrita pela equipe de Comunicação Institucional da Faculdade de Educação, composta pela servidora pública Giovanna Romaro, além das estudantes de Pedagogia da FE mencionadas Rayan da Silva e Laura Santos, da jornalista Erika Blaudt, da estagiária Laura Magalhães, e do revisor Marco Pinotti. A equipe foi responsável pela articulação entre artistas, estudantes, docentes, movimentos sociais e setores da universidade. O trabalho envolveu a realização de entrevistas, produção de conteúdos, registros audiovisuais, acompanhamento da criação artística e divulgação do projeto. Na execução do projeto foram envolvidas as equipes de Administração Predial, Finanças e Patrimônio, Educação a Distância e Eventos.
Memória para projetar o futuro
Ao final da cerimônia, o mural foi apresentado como o marco visual de uma luta que permanece em construção. Para além de registrar o passado, a obra confirma que a democratização da universidade é um processo contínuo, que exige acesso, permanência e reconhecimento das diferentes trajetórias que hoje compõem a comunidade acadêmica.
A artista visual Sabrina Savani, responsável pela criação do mural e participante das mobilizações de 2016, sintetizou o significado simbólico da obra ao refletir sobre sua própria trajetória durante o debate. “Se eu falasse para a Sabrina de 2016 que ela voltaria para a universidade recebendo um cachê como artista para criar uma obra sobre aquele momento, eu jamais acreditaria. Voltar como artista e representar um processo do qual participei tão intensamente é muito forte. É entender que a gente planta uma coisa para que ela seja colhida no futuro”, realçou.

Essa é justamente a mensagem que o painel Aquilombar a Universidade deixa para as próximas gerações: as transformações mais profundas da universidade começam quando a memória da luta se transforma em projeto de futuro.
Confira a inauguração do Painel Aquilombar a Universidade:
