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Educação midiática nas escolas: estamos preparando os estudantes para enfrentar a era da desinformação e da IA?

Com novas regras para o uso de tecnologias e a inclusão da educação digital e midiática no currículo, escolas brasileiras enfrentam o desafio de formar estudantes capazes de investigar informações, compreender algoritmos e inteligência artificial e reconhecer os efeitos sociais e emocionais dos conteúdos que circulam nas redes

A educação digital e midiática passou a integrar obrigatoriamente a educação básica de 178,760 mil escolas públicas e privadas brasileiras na tentativa de promover um movimento que procura responder a um problema que já deixou de ser restrito ao ambiente virtual: a dificuldade de distinguir informação de opinião, fato de manipulação, conteúdo produzido por pessoas de material gerado ou alterado por inteligência artificial. A complexidade desse cenário foi analisada por docentes da Faculdade de Educação (FE), do do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que trazem apontamentos decisivos sobre os desafios de formar cidadãos críticos na era digital.

Fotografia que mostra uma criança sentada em uma sala de aula olhando para um notebook. Fim da descrição.

Com isso, a tentativa de uma mudança silenciosa, mas profunda, começa a atravessar as salas de aula brasileiras. Publicadas pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), as normativas visam fomentar a criticidade dos estudantes diante das mídias digitais e da Inteligência Artificial como forma de combater a desinformação. Essa transformação curricular passou a envolver diretamente 2,4 milhões de professores em todo o país (Inep, Censo Escolar 2025).

Para compreender o alcance desse desafio, é preciso antes dimensionar a própria natureza da desinformação. Longe de ser um fenômeno exclusivo da era das redes sociais ou dos algoritmos, a circulação de notícias falsas e manipulações é uma constante na história humana, manifestando-se desde o período industrial e acompanhando a própria evolução dos meios de comunicação de massa. “A desinformação existe desde que o jornal foi criado. Alguns jornais do século 19 eram totalmente sensacionalistas. A desinformação é um problema da sociedade industrial, um problema das democracias”, afirma o pesquisador em Educação, Cinema e suas Tecnologias do Laboratório de Estudos Audiovisuais da FE (Olho) e Prof. Dr. da FE-Unicamp Carlos Eduardo Albuquerque Miranda.

“A desinformação é um problema da sociedade industrial, um problema das democracias”, Prof. Dr. da FE, Carlos Miranda.

Fotografia que mostra um homem sentado falando e gesticulando com as mãos. Ele está em uma biblioteca; atrás dele há estantes com livros e à sua frente há uma mesa. Fim da descrição.

Ele acrescenta que a diferença substancial na contemporaneidade reside no alcance e na velocidade da propagação. Se no passado havia um único emissor para múltiplos receptores, hoje a arquitetura em rede transforma cada cidadão em um potencial replicador, conferindo às narrativas falsas um poder de penetração sem precedentes no tecido social.

A mecânica da desinformação no ambiente escolar ganha contornos complexos ao cruzar o consumo passivo de conteúdo com a ausência de mediação crítica. Na análise da dinâmica cultural da informação, teóricos como o filósofo marxista Antonio Gramsci e, posteriormente no Brasil, o filósofo Michel Debrun (Unicamp), um dos fundadores do CLE, indicaram que a disputa por hegemonia e sentido ocorre no interior dos próprios grupos sociais. Aplicada ao contexto digital, essa perspectiva demonstra que a desinformação não se combate apenas a partir do discurso acadêmico distante, mas dialogando diretamente no interior das comunidades virtuais e ecossistemas digitais onde os jovens constroem suas identidades. Em um cenário no qual 70% dos alunos do ensino médio já usam IA generativa para pesquisas escolares, a propagação de conteúdos falsos ou descontextualizados expõe a urgência de ferramentas analíticas robustas na rotina pedagógica (Cetic.br, TIC Educação 2025).

Nesse intuito, as pesquisadores do CLE adaptaram para o Brasil um curso de enfrentamento à desinformação em parceria com a UNESCO desde 2016, o que destaca a Unicamp como referência internacional de estratégias de Letramento Midiático, Informacional e Diálogo Intercultural para o Sul Global. Assim também criaram a Olimpíada Brasileira de Educação Midiática (leia abaixo), uma política pública inovadora associada à pesquisa de ponta desenvolvida, com interlocução da UNESCO para a constituição das estratégias massivas para educação midiática.

“O acesso aos meios de comunicação foi totalmente pulverizado, e a responsabilidade pelos dados não veio junto com esse acesso”, Profa. Dra. da FE, Nima.

Fotografia que mostra uma mulher sentada falando ao microfone. Ela está em uma sala com paredes brancas. Fim da descrição.

A coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos (GEPEJA), Profa. Dra. da FE, Nima Imaculada Spigolon, também participante da CLE, explica que a desinformação não é um fenômeno novo. O acesso aos meios de comunicação, entretanto, tornou-se muito mais distribuído. “O acesso aos meios de comunicação foi totalmente pulverizado, e a responsabilidade pelos dados não veio junto com esse acesso”, resume. É nesse intervalo entre o poder de produzir e compartilhar informação e a capacidade de compreender criticamente aquilo que circula que a escola passa a ocupar um lugar estratégico.

Fotografia que mostra uma mulher sentada em uma sala. A sala tem paredes brancas e à frente da mulher há uma mesa. Fim da descrição.

Sob a perspectiva da formação docente, a Vice-chefe do Departamento de Ensino e Práticas Culturais da FE-Unicamp, Profa. Dra. Adriana Varani, destaca que o combate à desinformação não se reduz ao repasse da informação correta, mas exige o cultivo de uma postura reflexiva e emancipatória. Para a pesquisadora, a escola deve instrumentalizar o estudante para questionar o mundo, utilizando princípios e métodos científicos para analisar criticamente o cotidiano. “Não se combate desinformação em sala de aula apenas com a informação correta, mas com uma formação em que crianças, jovens e adultos saibam questionar o que recebem de informação, que saibam buscar fontes diversas e olhar qualificadamente para elas”, enfatiza.

A mudança, portanto, não diz respeito apenas à tecnologia. Diz respeito à própria função da educação em uma sociedade na qual qualquer pessoa pode produzir, publicar, editar e distribuir informação para milhares ou milhões de outras pessoas.

Da informação correta ao pensamento crítico

A educação midiática não significa simplesmente ensinar o estudante a identificar uma mentira. Para a pesquisadora Adriana, o objetivo é mais amplo. A escola deve contribuir para que crianças, jovens e adultos desenvolvam condições de interpretar a realidade, questionar informações, ampliar repertórios e buscar diferentes fontes. Ela considera que essa perspectiva está relacionada a uma concepção de educação como prática da liberdade, em diálogo com o educador patrono da Educação, Paulo Freire. A tarefa da escola não seria entregar respostas prontas, mas criar condições para que o estudante desenvolva instrumentos para compreender o mundo e posicionar-se diante dele.

Essa perspectiva também ajuda a afastar um dos principais riscos do debate sobre desinformação: transformar a educação midiática em uma espécie de treinamento para identificar quais opiniões são consideradas corretas. “Então a discussão não está em validar ou censurar visões políticas. Está, sim, em construir uma prática educacional pautada na reflexão contínua sobre a vida a partir de princípios éticos, compromisso político e o bem coletivo”, destaca Adriana.

Nesse sentido, o professor Carlos Miranda corrobora que a educação midiática não deve ensinar o estudante a desconfiar de tudo, mas sim ajudá-lo a construir critérios. Quem produziu determinado conteúdo? De onde vieram os dados? Há fontes identificadas? O material foi retirado de contexto? Outras fontes confiáveis apresentam a mesma informação? Qual é a intenção de quem publicou? Que interesses econômicos, políticos ou ideológicos podem estar envolvidos? São perguntas simples, mas que podem mudar a relação do estudante com aquilo que aparece na tela, concordam os pesquisadores entrevistados.

Em diálogo com essa visão, a coordenadora do Observatório da Desinformação da Unicamp e pesquisadora dra. Cláudia Wanderley (vinculada ao CLE-Unicamp) complementa que a desinformação se nutre da falta de repertório pedagógico e funciona por nichos, sendo necessário compreender os espaços concretos onde ela circula e dialogar com os sujeitos que fazem parte dessas comunidades. Não basta observar o fenômeno a partir da “bolha acadêmica”; é preciso chegar aos territórios informacionais em que essas narrativas ganham sentido. “Como a desinformação é um fenômeno que funciona por nichos, é importante ter contato com o intelectual orgânico, alguém que está naquele campo onde a desinformação bateu. A gente está dentro do espectro da filosofia brasileira, pensando as conjunturas e o vínculo com uma interlocução com os intelectuais orgânicos. Esse é o princípio — e a estratégia é usar a própria diversidade cultural e intelectual que temos para entender a natureza da desinformação aqui no país”, conta.

Montagem horizontal que mostra duas fotografias verticais lado a lado. Nas duas, há uma mulher sentada olhando para frente e falando. As mulheres são duas pessoas diferentes. Fim da descrição.

“A gente se acostumou, na cultura moderna ocidental, a separar emoção e razão — e elas nunca foram, de fato, separadas…”, Profa. Dra. do CLE, Josianne.

Já a pesquisadora em História vinculada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e também coordenadora do Observatório da Desinformação, Profa. Dra. Josianne Francia Cerasoli, ao lado da pesquisadora Nima, enfatiza que a manipulação digital explora vulnerabilidades emocionais e identitárias. “A gente se acostumou, na cultura moderna ocidental, a separar emoção e razão — e elas nunca foram, de fato, separadas. O desafio não é controlar os sentimentos, mas aprender a reconhecê-los e compreender como funcionam. O medo pode levar alguém a disparar uma mensagem para todos os grupos de WhatsApp. A raiva pode fazer com que uma informação seja compartilhada antes de qualquer verificação”, aponta Josianne.

Daí uma síntese lembrada pela pesquisadora: “pensar criticamente e clicar sabiamente — não emocionalmente”, extraída da segunda edição do Mídia e Alfabetização Informacional Cidadãos Alfabetizados em Mídia Pensam Criticamente, Clicam Com Sabedoria! Currículo de Alfabetização Midiática e Informacional para Educadores e Aprendizes, elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).  Significa pausar o impulso emocional, verificar a veracidade dos fatos e avaliar os riscos reais antes de interagir com qualquer conteúdo digital. Essa postura também evita, além da disseminação de fake news, golpes e reações impulsivas na internet. Já para o professor Carlos Miranda, a resposta pedagógica passa obrigatoriamente por ensinar a checagem na raiz: “A escola tem que tirar a informação desse encapsulamento de ‘objeto em si’ — as perguntas básicas são: qual é a fonte? Essa ideia de que a gente tem que investigar a origem, a procedência, se foi feito por IA, com que intencionalidade — isso tem que ser educado desde a educação infantil”.

Impactos sociais e financeiros ao país

A desinformação acarreta danos sociais e financeiros que custam bilhões de reais ao país, afetando desde campanhas de saúde pública até a estabilidade de instituições democráticas e a economia nacional. O ecossistema de dados falsos e teorias conspiratórias compromete políticas públicas essenciais e destrói a confiança interpessoal e institucional. 

A desinformação também afeta, por exemplo, os dados macroeconômicos e o planejamento do Estado. Levantamento realizado pelo Banco Central do Brasil apontou que notícias falsas focadas estritamente em temas econômicos tiveram um crescimento expressivo. Em 2019, representavam apenas 1,1% das desinformações checadas no país; em anos recentes, saltaram para quase 10% de toda a desinformação nacional, tendo como principal alvo a inflação. Pesquisas financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) mostram que a desinformação científica atua como um modelo de negócios altamente lucrativo para influenciadores e clínicas privadas. Esses grupos promovem cursos e tratamentos ineficazes caros (gerando lucros particulares), enquanto transferem o custo do agravamento de saúde dos pacientes para as contas do SUS.

Avaliando a gravidade desse cenário, o pesquisador Carlos Miranda ressalta que a desinformação deixou de ser um mero ruído comunicacional para se tornar um problema estrutural de soberania e cidadania: “A aceitação das fake news se dá muito pelo despreparo para lidar com uma informação. Antes eu tinha um emissor — só um mentia. Hoje um mente, mas espalha essa mentira indiscriminadamente, e isso se torna quase uma verdade por repetição, principalmente para quem já quer acreditar naquilo”.

“A desinformação pode contribuir para diferentes formas de violência quando integra ecossistemas digitais que disseminam discursos de ódio e narrativas de perseguição…”, Profa. Dra. da FE, Telma.

Fotografia que mostra uma mulher sentada, falando e gesticulando com as mãos em uma biblioteca. Atrás dela há estantes com livros e à frente dela há uma mesa. Fim da descrição.

Além do dano econômico e institucional, a desinformação atua como combustível para a violência digital, alimentando o cyberbullying, o discurso de ódio e a cultura do cancelamento. A pedagoga vinculada ao Departamento de Psicologia Educacional da FE Profa. Dra. Telma Vinha, especialista em convivência escolar, alerta para o papel dos ecossistemas extremistas na radicalização de jovens: “A desinformação pode contribuir para diferentes formas de violência quando integra ecossistemas digitais que disseminam discursos de ódio e narrativas de perseguição. Memes violentos e imagens chocantes transformam a humilhação em entretenimento, produzindo dessensibilização e reduzindo a empatia com as vítimas”.
O problema se agrava significativamente em períodos eleitorais, quando a polarização é instrumentalizada. Como aponta o professor Carlos Miranda, estimativas indicam que cerca de 60% das notícias falsas em circulação durante anos de pleito concentram-se na arena política, transformando a sala de aula em um ambiente de disputas acirradas que exige preparo e compromisso ético dos educadores. Há ainda um longo caminho a ser percorrido na área educacional, levando em consideração a infraestrutura escolar, a formação de professores e a sobrecarga de trabalho, entre outros percalços.

Por isso, a educação midiática precisa ensinar também a ler as linguagens que circulam nas telas: imagens, sons, cortes de vídeo, memes, humor, símbolos, comentários e formas de interação, como reforça Telma. “Uma mensagem pode não apresentar uma mentira evidente e, ainda assim, manipular o público por meio da seleção de imagens, da edição, da omissão de informações ou de uma linguagem sensacionalista”, reitera.

Gargalos identificados na implementação

Os principais gargalos identificados na implementação da educação midiática incluem a escassez de materiais pedagógicos estruturados — apontada por 77% das escolas que ainda não realizam ações no setor —, a baixa participação das famílias (75%) e a falta de laboratórios de informática, presentes em apenas 28% dos estabelecimentos de ensino (Cetic.br, TIC Educação 2025; QEdu/Censo Escolar 2025). Como horizonte de superação, sociólogos como Edgar Morin defendem uma reorganização do saber pautada na complexidade e no pensamento crítico, superando o ensino fragmentado conforme Morin apresentou. Trata-se de mover o foco da simples proibição das telas para o desenvolvimento do pensamento autônomo e da ética digital.

Diante desses desafios, ganha relevância o fortalecimento dos marcos regulatórios no país. A Resolução CNE nº 2/2025 e a obrigatoriedade da BNCC Computação tornam a educação digital parte integrante do currículo nacional a partir do ano letivo de 2026 (MEC/CNE). No âmbito da proteção de dados e direitos de crianças e adolescentes, o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025) estabelece que as plataformas enviem relatórios de transparência à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a partir do segundo semestre de 2026, abrindo caminho para a fiscalização efetiva e aplicação de sanções a partir de janeiro de 2027 (ANPD). Paralelamente, a Estratégia Brasileira de Educação Midiática (EBEM), gerida pela SECOM/Presidência da República em parceria com a Unesco, consolida diretrizes para articular políticas públicas em todo o território nacional.

A dimensão afetiva e cultural da comunicação digital também desempenha um papel central na adesão às narrativas enganosas. A pesquisadora Josianne explica que as emoções, como o medo e o desejo de pertencimento, são intencionalmente mobilizados como gatilhos para engajar o usuário antes que o filtro racional seja acionado. Confirmando essa análise, a pesquisadora Telma observa que “muitas mensagens não procuram convencer por argumentos explícitos, mas constroem adesão por choque, ironia e indignação”. O docente Carlos Miranda arremata destacando a sobrecarga docente após a aprovação da restrição aos celulares (Lei nº 15.100/2025): “Ficou tudo na mão do professor: lidar com o intervalo, com a raiva do aluno que perdeu o celular, e ainda ir atrás de entender o que é fake news e algoritmo preditivo — sem nenhuma preparação para isso”.

Para as docentes Nima e Josianne, o caminho para enfrentar a desinformação no ambiente escolar passa pela valorização contínua dos educadores e pela garantia de condições adequadas de trabalho, aliadas a uma sólida formação inicial e continuada. As pesquisadoras enfatizam também que o sucesso das regulamentações educacionais depende da responsabilização direta das Big Techs e plataformas digitais, que devem ser submetidas a regras transparentes de moderação e algoritmos éticos e ao envolvimento das famílias na vida letiva de seus filhos.

Um tipo de “vacina” contra a desinformação

Há uma metáfora usada pelo professor Carlos Miranda que sintetiza o desafio: a escola não conseguirá derrotar a desinformação. Ela continuará existindo. O que se pode fazer é criar uma espécie de “vacina” contra seus efeitos: ensinar o estudante a reconhecer como uma informação é produzida, identificar sinais de manipulação, investigar sua origem e compreender por que determinadas mensagens despertam reações tão intensas.
A experiência relatada pela docente Josianne Cerasoli ajuda a compreender esse processo. Durante um terremoto no Chile, ela conta que não percebeu imediatamente o tremor da mesma forma que seus colegas chilenos. Eles sabiam reconhecer a situação e sabiam como agir porque tinham desenvolvido aquele repertório ao longo da vida. A pesquisadora explica que o letramento midiático funciona de maneira semelhante. Não é um reflexo espontâneo. É um repertório que precisa ser construído desde a infância.

Uma obrigação de todos!

As campanhas para a corrida das eleições iniciaram e a atenção às desinformações, neste momento, precisa ser redobrada tanto dentro da escola quanto fora dela. A legislação pode criar obrigações, mas não produz, sozinha, uma cultura de pensamento crítico. A Resolução CNE nº 2/2025 tornou obrigatória a oferta de educação digital e midiática nas escolas a partir deste ano, o ECA Digital adiciona novas responsabilidades relacionadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. São marcos importantes, mas sua efetividade depende de políticas públicas, recursos, formação de professores, participação das famílias e, sobretudo, da responsabilização dos diferentes atores envolvidos no ecossistema digital e fiscalização. 

Nima enfatiza que a responsabilidade não pode ser transferida exclusivamente para a escola. “Isso não é responsabilidade exclusiva das escolas. Plataformas e empresas de mídia também precisam assumir compromissos relacionados à transparência, à circulação de conteúdos fraudulentos e à checagem das informações. A mesma lógica vale para as famílias. Em vez de orientar pais e responsáveis apenas a vigiar, bloquear ou proibir, a escola pode criar espaços de conversa sobre privacidade, exposição de imagens, golpes, desinformação, discursos de ódio e canais de ajuda. A proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital precisa ser construída como uma rede”, avalia. 

É nesse cruzamento entre educação, comunicação, história, psicologia, tecnologia e cidadania que o debate ganha profundidade. A escola brasileira começa a incorporar a educação digital e midiática justamente quando a inteligência artificial torna cada vez mais difícil distinguir o que foi produzido por uma pessoa, por uma máquina ou pela combinação dos dois. A resposta não parece estar em formar estudantes que simplesmente desconfiem de tudo, nem em retirar deles o acesso às tecnologias. Somente ao integrar a valorização docente, o rigor regulatório e a responsabilização das empresas de tecnologia será possível consolidar uma educação digital que promova a cultura da paz, a transparência e a consolidação dos valores democráticos, começando com os pequenos da educação infantil.

Olimpíada Brasileira de Educação Midiática: inovação em política pública e liderança global

A Olimpíada Brasileira de Educação Midiática, desenvolvida pelo Observatório da Desinformação, formado também pelas pesquisadoras do IFCH, CLE, Cláudia, Josianne e Nima (FE-Unicamp), e sediado na Unicamp, em parceria com o MCTI e a Secretaria de Comunicação da Presidência da República surge como um marco histórico no combate ao analfabetismo digital e à disseminação de notícias falsas no Brasil. Estruturada em quatro semanas contínuas de atividades, a competição reúne equipes compostas por estudantes de escolas públicas e um professor mediador. O diferencial pedagógico da iniciativa reside na sua abordagem não maniqueísta: em vez de simplesmente rotular conteúdos entre “verdadeiro” ou “falso”, as equipes são desafiadas a analisar criticamente desinformações originadas em contextos totalmente alheios às suas realidades. Essa metodologia permite que os jovens compreendam os mecanismos profundos, as intenções e as dinâmicas sociais que sustentam a circulação de dados enganosos na rede.
Além do impacto direto nas salas de aula, o projeto consolida-se como a primeira política pública brasileira voltada ao treinamento massivo em educação midiática. A iniciativa promove a capacitação em larga escala de educadores da rede pública e o engajamento ativo de estudantes, integrando-se às diretrizes e princípios da legislação nacional para a área.
A eficácia e o alcance do modelo brasileiro já projetam o país como referência internacional no setor. Em parceria com a UNESCO — cooperação mantida desde 2006 —, o Brasil negocia a exportação dessa metodologia para diversos países interessados em replicar a olimpíada como estratégia global de fortalecimento da cidadania digital e da democracia.

Leia mais:

Falando de Pesquisa! – ‘O ECA Digital e seus impactos na educação de crianças adolescentes e nos cursos de formação de professores’, com Heloísa Matos Lins.

Mapa Brasileiro da Educação Midiática

O Mapa Brasileiro da Educação Midiática é uma iniciativa da Secom, com apoio do Governo do Reino Unido no Brasil, parceria técnica do Porvir e cooperação da UNESCO. Ele foi construído a partir de duas chamadas públicas, realizadas em 2023-2024 e 2026, que mobilizaram educadores, pesquisadores, organizações, escolas, governos e instituições que promovam ações relacionadas à educação midiática no Brasil.

Mapa Brasileiro da Educação Midiática

Manual do Governo – Estratégia Brasileira de Educação Midiática

FONTES CONSULTADAS

Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) — Cronograma de implementação do ECA Digital (Lei nº 15.211/2025)

Cetic.br | NIC.br (CGI.br) — Pesquisa TIC Educação 2025, 16ª edição

Conselho Nacional de Educação (CNE) — Resolução CNE nº 2/2025

DEBRUN, Michel. Gramsci. Filosofia, política e bom senso. Campinas, SP: UNICAMP, Centro de Lógica e Epistemologia, 2001.

Fórum Econômico Mundial, dado divulgado pela Agência Brasil (2024)

Freire, P. Pedagogia do Oprimido, 1968

Gramsci, A. Cadernos do Cárcere (escritos entre 1929 e 1935)

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) — Censo Escolar da Educação Básica 2025

Ministério da Educação (MEC) / Inep — Pesquisa Nacional do 1º ano da Lei nº 15.100/2025 (2026)

Morin, E. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, 1999

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dado divulgado pela Abert (2026)

Wardle, C.; Derakhshan, H. Information Disorder. Conselho da Europa, 2017

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