Ao longo do segundo semestre de 2025, a disciplina “Psicologia e Educação” (EP226B) consolidou, na Faculdade de Educação da Unicamp (FE-Unicamp), uma experiência extensionista centrada na articulação entre formação docente, escola pública e educação inclusiva. Sob responsabilidade da professora Mara Lopes, do Departamento de Psicologia Educacional (DEPE), o projeto foi desenhado para integrar as discussões teóricas trabalhadas na disciplina — com ênfase em Epistemologia Genética e Psicologia Histórico-Cultural — aos relatos e observações realizados por licenciandos em contextos escolares, muitas vezes marcados por episódios de discriminação e exclusão. A partir desse material, a turma foi convidada a transformar o diagnóstico pedagógico em proposições concretas: estratégias didático-metodológicas capazes de apoiar o trabalho docente e fomentar práticas inclusivas no cotidiano escolar.

Projetos temáticos e inclusão como eixo transversal
O percurso formativo culminou na elaboração de 11 projetos temáticos, organizados por grupos, cada um ancorado em uma das abordagens teóricas discutidas na disciplina. As propostas contemplaram diferentes dimensões da inclusão, abordando desde o trabalho com estudantes com Transtorno do Espectro Autista até relações étnico-raciais, diversidade linguística e cultural e participação democrática na escola. A produção dos projetos também respondeu a um desafio recorrente identificado nas observações: a dificuldade de compreender a escola como espaço de construção coletiva e de resolução democrática de conflitos — dinâmica que, ao limitar a participação discente, aprofunda a sensação de não pertencimento, sobretudo entre sujeitos já socialmente marginalizados.
Parceria com a EJA de Sumaré e a universidade como espaço público
Para dar materialidade extensionista às propostas construídas ao longo do semestre, a disciplina estabeleceu diálogo com a Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal de Ensino Fundamental Profª Nilza Thomazini, de Sumaré (SP), localizada no bairro Matão, região periférica do município. A aproximação foi viabilizada a partir do relato de uma professora da escola que também integra a turma de Pedagogia na Unicamp, permitindo que o projeto se conectasse a uma demanda real e a um público frequentemente afastado dos circuitos universitários. Considerando a limitação de tempo para revisar e devolver todos os materiais como sugestões pedagógicas às escolas, a disciplina optou por realizar, com esse grupo, um conjunto de estratégias didático-metodológicas adaptadas ao perfil da EJA, transformando os projetos em experiência compartilhada e em encontro efetivo entre comunidade externa e universidade pública.

Estratégias aplicadas: ancestralidade, democracia e ludicidade
Entre as propostas elaboradas pelos licenciandos, três foram selecionadas e adaptadas para aplicação com os estudantes visitantes. A atividade “Ancestralidade é o presente” promoveu a valorização da cultura africana por meio de contação de histórias, abrindo espaço para escuta e interpretação coletiva. Já o “Jogo da Democracia”, um tabuleiro desenvolvido por estudantes a partir de adaptações de jogos existentes, estimulou argumentação, tomada de decisão e votação de soluções para problemas escolares, exercitando a participação como prática pedagógica e não apenas como princípio abstrato. Por fim, a oficina “Brincadeiras Indígenas”, centrada na confecção e no uso da peteca, combinou produção manual, interação e reflexão sobre culturas originárias, evidenciando como o lúdico também pode ser uma dimensão de inclusão, convivência e reparação simbólica.
Impactos formativos e retorno social da extensão
O projeto extensionista da disciplina EP226B produziu impacto em duas frentes complementares. Para os licenciandos, representou um ciclo formativo completo: observação de práticas escolares, mediação teórica, elaboração de estratégias e aplicação em situação real, com organização coletiva, autonomia e responsabilidade compartilhada. Para os estudantes da EJA e seus docentes, a experiência reforçou a universidade como espaço público acessível e como lugar de acolhimento, com atividades que combinaram leitura, debate, prática e convivência. Em avaliação enviada posteriormente pela escola, o grupo destacou a recepção e o sentimento de ter sido acolhido e valorizado, sinalizando a importância de ações que aproximem a FE-Unicamp de sujeitos e territórios historicamente afastados do ambiente universitário.




