Ao longo do mês de fevereiro, a Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE-Unicamp) realizou o projeto “Para Além do Gênero: Promovendo a Inclusão de Pessoas Trans e Travestis na Universidade”, iniciativa desenvolvida em parceria com o Núcleo de Consciência Trans (NCT/Unicamp) e viabilizada pelo Edital Programa de Auxílio a Projetos Institucionais (PAPI) 2026. Voltado a docentes e funcionários da unidade, o ciclo formativo consolidou uma agenda de formação crítica e prática em torno da diversidade de gênero, com desdobramentos que apontam para a construção de uma política institucional mais ampla de acolhimento e permanência.


A formação foi estruturada em seis encontros realizados no Auditório Maurício Tragtenberg, combinando exposições dialogadas, mesas de debate, análise de casos e atividades práticas. O primeiro eixo tratou dos fundamentos da diversidade de gênero e sexualidade, diferenciando conceitos como sexo biológico, identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual, além de discutir cisnormatividade e heteronormatividade. Nos encontros seguintes, a formação aprofundou a realidade de estudantes e funcionários trans e travestis na universidade, abordando barreiras de acesso e permanência, uso de sanitários, situações de transfobia e o direito ao nome social, garantido pelo Decreto Federal nº 8.727/2016. Estratégias de enfrentamento à discriminação e práticas de acolhimento foram trabalhadas por meio da construção coletiva de protocolos e elaboração de um guia de boas práticas voltado ao cotidiano das secretarias, coordenações, salas de aula e demais espaços acadêmicos e institucionais.
A condução das atividades contou com integrantes do NCT/Unicamp e palestrantes com trajetória na defesa de direitos humanos e diversidade. Paris Universe, membra-fundadora do Núcleo e articuladora da chamada “Pedagogia da Travesti”, destacou que o projeto nasce de uma experiência situada: “Como travesti, preta e periférica, que usa a escrevivência para desaprender e reeducar os espaços, entendo esta formação como um ato de desobediência frente à transfobia institucionalizada (Evaristo, 2020; Odara, 2020)”. Para ela, no contexto recente de implementação das políticas públicas de cotas trans e de intensificação de discursos intolerantes, a formação torna-se um mecanismo indispensável para assegurar permanência e desempenho acadêmico. “A universidade precisa fornecer instrumentos concretos de acolhimento; não basta garantir o acesso formal, é preciso garantir condições reais de existência”, afirmou.
Segundo Paris, a reação da comunidade da FE foi marcada pelo engajamento e pela abertura ao diálogo. A metodologia do curso foi pensada justamente para acolher dúvidas e tensionamentos, prevendo atividades reflexivas sobre saberes prévios, espaços de perguntas e mesas com participação de pessoas trans e travestis da própria universidade. O envolvimento de servidoras de outras unidades, como a Faculdade de Educação Física, também sinaliza o interesse que ultrapassa os limites da FE-Unicamp.
O encontro de encerramento, dedicado ao “Compromisso Institucional e à Rede de Apoio Contínua”, sintetizou os aprendizados e resultou na elaboração participativa de propostas setoriais de ação. O objetivo é estruturar um plano permanente, com mapeamento de recursos já existentes — como serviços de saúde mental e núcleos de diversidade — e definição de responsabilidades em cada setor. As bolsistas do projeto atuaram na mediação das atividades, no acompanhamento do processo formativo e na produção de registros que subsidiarão um relatório reflexivo final, orientado à consolidação e possível replicação das práticas desenvolvidas.
Para a Faculdade de Educação, a iniciativa, que integra sua Política de Inclusão, Diversidade e Acessibilidade, reafirma o compromisso com o respeito radical às diferenças em todas as dimensões da vida universitária. Ao enfrentar preconceitos e propor mecanismos concretos de acolhimento — do uso correto do nome social à revisão de formulários e ambientes físicos —, a formação responde a um dado alarmante: no Brasil, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida de pessoas trans é consideravelmente menor do que a da população em geral (Benevides, 2025). “A cidadania trans não pode ser um artigo de luxo”, enfatiza Paris. “Ela precisa ser uma garantia básica de dignidade humana, do asfalto à favela”.
Embora direcionado inicialmente à comunidade interna da FE, o projeto foi concebido com horizonte institucional mais amplo. A sistematização das práticas, a elaboração de um guia simplificado e a articulação com redes de apoio indicam um movimento que pode fortalecer políticas de inclusão em outras unidades da Unicamp. Ao transformar a formação num compromisso coletivo, a FE contribui para que a universidade avance na construção de um ambiente democrático, seguro e efetivamente acolhedor — um espaço em que a diversidade não seja tolerada como exceção, mas reconhecida como princípio estruturante da vida acadêmica.


Saiba mais:
BENEVIDES, Bruna G. Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024. Brasília: ANTRA, 2025.
EVARISTO, Conceição et al. A escrevivência e seus subtextos. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo, v. 1, p. 26-46, 2020.
FAVERO, Sofia. “Por uma ética pajubariana: a potência epistemológica das travestis intelectuais”, Equatorial, o. vol. 7, n. 12, jan./jun.2020.
MOREIRA, Antonia. Construindo Memórias de Outros Lugares: Heterotopia trans ou fábrica de travestis na ocupação TRANSmoras na Unicamp. Revista Eletrônica Interações Sociais, v. 8, n. 1, 2024.
ODARA, Thiffany. Pedagogia da desobediência: travestilizando a educação. Salvador, Devires, 2020.
PASSOS, Maria C. A. dos. Pedagogias das travestilidades. Civilização Brasileira: Pernambuco, 2022. RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte (MG): Letramento, 2017.
