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Ler para não aceitar o mundo passivamente

Em meio à aceleração das telas, à pressão por resultados e à fragmentação da atenção, a leitura continua sendo uma experiência decisiva de formação crítica. Para o professor Ezequiel Theodoro da Silva, formar leitores não é apenas ensinar a compreender textos, mas também criar condições para que estudantes produzam sua própria palavra diante deles. Na biblioteca, essa tarefa ganha corpo em práticas de mediação, acesso e circulação de ideias.

Num tempo em que a leitura parece cada vez mais cercada por notificações, vídeos curtos, tarefas acumuladas e respostas imediatas, defender seu papel na formação humana pode soar, para alguns, como um gesto nostálgico. Mas é precisamente o contrário. Num cenário marcado pela velocidade, pela fragmentação e pela pressão constante para reagir antes de refletir, a leitura continua sendo uma das experiências mais exigentes (e mais necessárias) para quem deseja compreender o mundo sem apenas se submeter a ele.

Fotografia que mostra dois livros, um em cima do outro e ao fundo crianças sentadas em roda. Fim da descrição.

Para o professor, pesquisador e escritor Ezequiel Theodoro da Silva, Livre Docente da Faculdade de Educação da Unicamp, a leitura crítica começa justamente onde termina a simples decodificação. Entender um texto, afirma ele, é importante, mas não basta. O leitor crítico é aquele que vai além da superfície, interroga o que lê, suspeita de suas premissas, percebe silêncios, identifica interesses e formula sua própria posição diante do que foi dito. Em vez de receber o texto como uma peça fechada, ele passa a tratá-lo como objeto de interlocução.

A distinção parece simples, mas desloca todo o problema da leitura. Em muitos contextos escolares, ler ainda é associado ao cumprimento de uma tarefa, ao questionário, à prova, à busca da “mensagem correta”. Nesses casos, a leitura tende a ser esvaziada e convertida em mecanismo de controle. Ezequiel observa que, durante muito tempo, a escola ajudou a transformá-la num “ritual de vigilância”, no qual o mais importante não era a experiência do leitor, mas a sua capacidade de devolver a resposta esperada. O problema, diz ele, é que o extremo oposto tampouco resolve a questão. Formar leitores não significa apenas liberar escolhas individuais e confiar que o gosto imediato conduzirá, por si só, a percursos mais complexos.

A leitura, nesse sentido, depende de uma mediação rigorosa. Exige espaço de escolha, mas também ampliação de repertório, criação de contextos, aproximação entre a experiência concreta do aluno e obras que talvez ele nunca procurasse sozinho. Formar leitores, nessa perspectiva, é justamente levá-los além do já conhecido. Não se trata de impor textos como quem administra obrigações, nem de abdicar da responsabilidade pedagógica em nome de um espontaneísmo confortável. Trata-se de criar condições para que o encontro com o texto seja, ao mesmo tempo, livre e exigente.

Essa exigência se torna ainda mais importante quando se leva em conta que os estudantes não chegam à escola com as mesmas histórias de leitura. Alguns cresceram em ambientes marcados pela presença de livros, conversas, leitores e familiaridade com a linguagem escrita. Outros tiveram pouco ou nenhum acesso a esse universo. Reconhecer essa desigualdade, observa Ezequiel, não implica diminuir a exigência intelectual, mas construir caminhos mais inteligentes e mais justos para que todos possam avançar. A democratização da leitura não se realiza por meio do rebaixamento do trabalho escolar, e sim pela combinação entre acesso, diversidade de acervos, tempo institucional para ler, bibliotecas vivas e mediação qualificada.

O desafio da atenção em tempos de telas

É aí que a figura do professor se revela fundamental. Para Ezequiel, o docente não deve ser nem o transmissor autoritário de interpretações prontas nem o mediador passivo que apenas coloca o aluno diante do texto e espera que tudo aconteça por conta própria. Seu papel é mais complexo. Cabe a ele selecionar textos, organizar percursos, contextualizar obras, provocar perguntas, escutar respostas, tensionar leituras apressadas e ampliar horizontes. Em outras palavras, sustentar um espaço rigoroso de interlocução. Numa cultura em que a dispersão frequentemente se impõe sobre a concentração, o professor permanece como presença decisiva para testemunhar, na prática, que ler vale a pena.

Fotografia que mostra uma folha de papel branca pendurada em um varal com a escrita "'A literatura é um direito universal' (A. Candido)". Fim da descrição.

A defesa da literatura, nesse quadro, ganha um sentido especial. Em vez de tratá-la como ornamento cultural ou como mero conteúdo escolar, Ezequiel insiste em seu poder singular de alargar a experiência humana. Um texto informativo pode instruir; a literatura, além disso, desloca. Ao confrontar o leitor com conflitos, ambiguidades, dores, desejos e contradições, ela o afasta do lugar comum, desautomatiza o olhar e o obriga a conviver com a complexidade. Em tempos saturados por informações rápidas e reações automáticas, essa convivência com a espessura do humano não é um luxo: é parte da própria formação.

Entretanto, se a leitura é esse espaço de elaboração, lentidão e confronto, o presente parece trabalhar em direção contrária. Ezequiel reconhece que a cultura digital alterou profundamente a ecologia da atenção. A vida cotidiana passou a ser permeada por interrupções constantes, alternância de focos, estímulos ininterruptos e formas fragmentadas de leitura. Isso afeta a memória, a concentração e a disposição para permanecer diante de textos mais exigentes. A leitura profunda, lembra ele, requer duração, releitura, convivência com a dificuldade, silêncio interior. Não por acaso, tornou-se mais difícil.

Ainda assim, o professor recusa as explicações simplistas que transformam a tecnologia em bode expiatório. O problema não está apenas nas telas, mas nas práticas e lógicas que elas intensificam. Por isso, a tarefa da escola não é demonizar o digital, e sim criar contrapontos. Formar leitores hoje exige ensinar também uma ética da atenção: saber interromper o fluxo, sustentar a concentração, tolerar a lentidão, voltar ao texto, amadurecer interpretações. Se o entorno favorece a dispersão, a escola precisa se afirmar como espaço de aprofundamento.

Esse diagnóstico ajuda a escapar de dois lugares-comuns igualmente empobrecedores: o de que os jovens simplesmente não leem mais e o de que toda leitura em ambiente digital já seria, por si, sinal de vitalidade cultural. Os jovens leem, sim, e muito — legendas, mensagens, comentários, posts, imagens, signos variados. O que isso não garante automaticamente é a formação de leitores capazes de sustentar a leitura longa, a interpretação complexa e a reflexão crítica. O que está em crise, argumenta Ezequiel, não é a leitura em geral, mas um certo modo de ler: denso, continuado, exigente, formador. Reconhecer essa transformação sem nostalgia e sem adesão ingênua ao novo talvez seja uma das tarefas mais delicadas da educação contemporânea.

A mesma cautela vale para o uso pedagógico das plataformas. Trabalhar com diferentes gêneros e suportes textuais, inclusive digitais, é necessário. Contudo, há diferença entre ampliar repertório e adaptar-se passivamente às lógicas do mercado e do engajamento. Quando a escola incorpora novos formatos para analisá-los criticamente, compará-los e compreender seus efeitos, ela amplia o universo da leitura. Quando apenas corre atrás do que está “bombando”, submete-se à lógica da captura da atenção e abdica de seu papel formador. A formulação de Ezequiel é precisa: a escola não deve ignorar as plataformas, mas também não pode ajoelhar-se diante delas.

Ler, responder, produzir a própria palavra

Essa postura crítica envolve, inevitavelmente, a passagem da leitura para a autoria. Em sua perspectiva, a leitura crítica só se completa quando o leitor produz sua própria palavra diante da palavra do outro. Ler bem implica responder, comentar, reescrever, argumentar, relacionar, problematizar. Sempre que a escola se limita a cobrar a interpretação correta, ela reduz o estudante à condição de destinatário passivo. Quando, ao contrário, abre espaço para que ele formule perguntas, escreva resenhas, elabore contrapontos, experimente ensaios e construa argumentos, a leitura deixa de ser recepção controlada e se converte em gesto de autoria. Formar leitores, nesse sentido, é também formar sujeitos capazes de produzir sentidos.

Se a sala de aula é um dos lugares decisivos dessa formação, a biblioteca é outro. Diretora da Biblioteca Prof. Joel Martins, da Faculdade de Educação, Simone Lucas Gonçalves de Oliveira chama a atenção para o fato de que as bibliotecas não podem ser vistas apenas como espaços de apoio ao estudo ou depósitos de livros. Para ela, trata-se de lugares onde circulam ideias e se criam conhecimentos, ambientes em que leitura, cultura e arte podem contribuir para a transformação das pessoas. Sua função não se limita à preservação da memória escrita, embora esse papel também seja essencial. A biblioteca universitária, diz Simone, precisa ser igualmente um laboratório de aprendizagem, um espaço de mediação e de democratização do acesso ao conhecimento.

A observação confere maior concretude ao debate. Se a leitura crítica exige condições práticas para existir, essas condições passam por acervos, espaços, investimento, diálogo com professores e estudantes e atividades consistentes de mediação. Simone insiste que não se sustenta uma biblioteca que viva somente de prateleiras e empréstimo de livros. É preciso “dar vida” aos livros: promover clubes de leitura, feiras, sessões de cinema, atividades de mediação e experiências em que o público participe não apenas como usuário, mas como sujeito do processo formativo. Num momento em que a leitura é frequentemente associada à obrigação escolar ou acadêmica, a biblioteca pode ajudar a reconstruir uma relação mais autônoma e significativa com os livros.

Biblioteca, universidade pública e democratização do conhecimento

Essa dimensão pública é especialmente importante numa universidade como a Unicamp. Garantir acesso democrático aos materiais de estudo, aos espaços de leitura e à circulação plural de ideias não é uma função acessória da vida universitária, mas parte de seu compromisso com a formação crítica. Para estudantes que nem sempre tiveram acesso amplo a bens culturais ao longo da vida, a biblioteca pode representar uma porta de entrada decisiva — não apenas para o acompanhamento das disciplinas, como também para experiências de leitura que ampliam repertórios, despertam perguntas e fortalecem vínculos com a produção de conhecimento.

A leitura, afinal, não emancipa por mágica. Ela emancipa quando deixa de ser um simples treinamento, quando encontra mediação qualificada, quando se abre ao conflito e à complexidade, quando se transforma em palavra própria e quando se apoia em instituições que a tornam possível. Em meio à pressa, à padronização e ao ruído incessante do presente, talvez seu valor mais profundo esteja justamente nesta possibilidade: permitir que alguém suspenda o automatismo, examine o que lê, interrogue o que vê e se recuse a aceitar passivamente o mundo tal como ele se apresenta.

É por isso que, para Ezequiel, formar leitores continua sendo uma tarefa intelectual, pedagógica e política. Seus efeitos nem sempre cabem em planilhas, índices ou relatórios. Muitas vezes são lentos, discretos, quase invisíveis no curto prazo. Ainda assim, persistem. E talvez sejam hoje mais necessários do que nunca.

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