
A intensificação do trabalho, a pressão por resultados, a perda de autonomia e a naturalização de violências no ambiente escolar e universitário têm tornado cada vez mais urgente o debate sobre a saúde dos docentes. Em diálogo com o tema do mês de março na Faculdade de Educação da Unicamp, a FE realizará, no dia 25 de março, o I Encontro do Observatório do Trabalho Docente 2026, iniciativa que pretende se firmar como espaço permanente e aberto de articulação entre universidade, sistemas educativos, sindicatos e associações profissionais em torno das relações de trabalho docente.
Com o tema “(Des)Caminhos Gerenciais: da racionalidade neoliberal à (im)possibilidade da formação humana”, o encontro parte de uma constatação que vem sendo reiterada por estudos da área: as transformações recentes na gestão da educação pública não se limitam ao plano administrativo, mas incidem diretamente sobre a vida concreta dos professores, com efeitos sobre o corpo, a saúde mental, a subjetividade e o sentido do trabalho.
Um dos principais referenciais para esse debate é o artigo “Plano Nacional de Educação, autonomia controlada e adoecimento do professor”, de Evaldo Piolli, Eduardo Pinto e Silva e José Roberto M. Heloani. No texto, os autores analisam as reformas educacionais, a adoção de práticas e políticas gerencialistas centradas em metas e indicadores e seus efeitos no cotidiano de escolas e universidades públicas. O argumento central sustenta que a incorporação, pelas instituições educacionais, de conceitos do setor privado — como produtividade, qualidade, metas e desempenho — tem contribuído para a produção de conflitos, frustrações, sofrimento, estresse e adoecimento entre docentes.
Segundo esse artigo, a racionalidade gerencial introduz critérios quantitativos, indicadores, ranqueamentos e mecanismos de avaliação que passam a reorganizar o trabalho educacional. Exige-se dos professores maior envolvimento e comprometimento, mas em torno de objetivos heterônomos, definidos fora do coletivo de trabalhadores e frequentemente dissociados das condições reais de ensino. Nessa lógica, a autonomia profissional é mantida apenas de forma aparente, enquanto se fortalecem mecanismos de responsabilização, controle e culpabilização.
Os autores observam ainda que esse modelo tende a aprofundar o individualismo, a competição, a concorrência, a angústia, as frustrações e os ressentimentos no espaço laboral. Ao mesmo tempo, a intensificação e a auto-intensificação do trabalho fragilizam o coletivo docente e enfraquecem a dimensão política da educação. O problema, portanto, não se reduz ao excesso de tarefas: ele envolve uma reorganização mais ampla do trabalho pedagógico, em que a lógica da eficiência e da mensuração passa a sobrepor-se ao sentido público e formativo da educação.
Outro texto importante para compreender esse cenário é o artigo “A Precarização Social do Trabalho e o Assédio Moral no Serviço Público Brasileiro: Como Fica a Saúde dos(as) Trabalhadores(as)?”, de Janine Kieling Monteiro, Adriana Machado Pooli, Elisete Soares Traesel, Andréia Garcia dos Santos, José Roberto Montes Heloani e Flavia Traldi de Lima. O estudo mostra como a precarização social do trabalho cria um ambiente organizacional fértil para a emergência do assédio moral em diferentes segmentos do serviço público, com implicações danosas para a saúde. Entre os elementos apontados estão a pressão por produtividade, as metas inatingíveis, o controle e o monitoramento do trabalho.
De acordo com esse artigo, as consequências do assédio moral incluem medo de falhar ou de ser punido, desmotivação, perda de sentido do trabalho, faltas, afastamentos e até aposentadorias por invalidez. O estudo também destaca que os efeitos dessas práticas não atingem apenas os alvos diretos da violência, mas se estendem a testemunhas, famílias e ao conjunto da vida social. Em vez de ser tratado apenas como um desvio individual, o assédio aparece ali vinculado a formas contemporâneas de gestão e à expansão de um modelo de trabalho cada vez mais precarizado.
Essa leitura converge com outra referência relevante, o texto “Gestão ou humilhação? Uma reflexão contemporânea sobre o assédio no trabalho”, de José Roberto Heloani, publicado na “Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região”. Já no próprio título, o autor formula uma chave interpretativa decisiva para o debate: a violência no trabalho não pode ser pensada apenas como uma conduta excepcional, mas também como uma expressão de modelos de gestão que operam por constrangimento, medo, exposição e desqualificação.
No mesmo horizonte, o livro “Atenção à saúde mental do trabalhador: sofrimento e transtornos psíquicos relacionados ao trabalho”, organizado por Álvaro Roberto Crespo Merlo, Carla Garcia Bottega e Karine Vanessa Perez, reforça que os serviços de saúde têm recebido um número crescente de trabalhadores com manifestações psíquicas relacionadas ao trabalho, muitas vezes sem que essa relação seja reconhecida de imediato. A apresentação da obra insiste que essa discussão já não pode ser tratada como uma questão lateral: trata-se de uma urgência concreta, que exige novas formas de escuta, diagnóstico e cuidado.
Dentro desse mesmo livro, o capítulo “O assédio moral como instrumento de gerenciamento”, de Margarida Barreto e Roberto Heloani, ajuda a explicitar o vínculo entre violência e gestão. A formulação é particularmente relevante para o campo educacional, porque sugere que humilhações, constrangimentos e pressões contínuas não são apenas efeitos colaterais de ambientes desorganizados, mas podem integrar tecnologias de comando e disciplina do trabalho.
É nesse contexto que o Observatório do Trabalho Docente ganha relevância. Mais do que sediar um evento pontual, a proposta é consolidar um espaço voltado ao debate, à troca de experiências, à formação política e à disseminação de informações sobre as relações de trabalho docente. O público-alvo do encontro inclui professores da educação básica e do ensino superior, estudantes de graduação e pós-graduação e representantes de entidades sindicais, numa tentativa deliberada de articular reflexão acadêmica, experiência profissional e organização coletiva.
A programação contará com a participação do Prof. Dr. Hermeson Claudio Mendonça Menezes, pesquisador da área de políticas educacionais, accountability, trabalho, democracia e neoliberalismo. A ementa do encontro formula de modo direto a questão em jogo: que educação é possível quando a gestão passa a valer mais que a formação? Ao tensionar o gerencialismo neoliberal, suas conexões com o conservadorismo e a precarização do trabalho docente, o debate aponta para uma questão mais decisiva: não apenas relacionada às condições de trabalho dos professores, mas ao próprio sentido público da educação e à possibilidade de sustentar uma formação humana que não esteja subordinada à lógica da eficiência e do controle.
Serviço
O I Encontro do Observatório do Trabalho Docente 2026 será realizado no dia 25 de março, com inscrições abertas até o dia do evento. A realização é do grupo de estudos Trabalho, Saúde e Subjetividade (NETSS).
