FALANDO DE PESQUISA! – ‘Profissão Docente: Profissão em/de Risco?’, com Selma Borghi

SELMA BORGHI VENCO: Socióloga, mestre e doutora em educação pela Universidade Estadual de Campinas, com doutorado-sanduíche na Université Paris X, Nanterre. Livre-docente na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Departamento de Políticas, Administração e Sistemas Educacionais (DEPASE); com dois pós-doutorados em sociologia do trabalho. Foi professora visitante na Universidade Estadual da Paraíba (2024) e na Universidade Federal da Bahia (2024). Pesquisadora associada do Centre de Recherches Sociologiques et Politiques de Paris (CRESPPA) e Vice-líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Política Educacional (GREPPE). Elaborou estudo comparativo França-Brasil sobre as precariedades vivenciadas por docentes e agudizadas pelo território no qual seu trabalho se inscreve. A pesquisa em curso visa analisar as relações e as condições de trabalho entre docentes da educação básica pública, agora marcadas por contextos afetados por radicalismos expressos por atitudes múltiplas em três países: Brasil, França e Alemanha.

TEMA DE MARÇO  – Trabalho Docente: Resgate histórico da luta pelo magistério, carreira, dignidade salarial e o debate urgente sobre saúde mental e prevenção ao adoecimento ocupacional, financeirização da educação estadual, luta pelo piso salarial dos professores.

Entrevistador (E). Qual o título ou tema da sua pesquisa?
Selma (S). Participo, no momento, de 3 estudos, das quais eu coordeno duas delas: 

1. A primeira, financiada pela FAPESP, é “Profissão docente, profissão em/de risco? Distintos radicalismos nas escolas no Brasil, França e Alemanha”, que objetiva analisar os avanços de distintas formas de autoritarismo na educação. No Brasil, o fenômeno das escolas cívico-militares pelo olhar das condições de trabalho de docentes da educação básica, na França a presença obrigatória dos e das estudantes em programas do Ministério da Defesa e, por fim, na Alemanha, com a perseguição das famílias a docentes em territórios marcados pelo crescimento do neonazismo

2. É financiada pelo CNPq e também por mim coordenada refere-se ao desenvolvimento de um índice de precariedade concernente às formas de contratação de professores e professoras de todos os estados, Distrito Federal e municípios do país abarcando as redes estaduais, municipais e federal. Além desse eixo central do estudo, outros objetivos são analisados, a exemplo do orçamento destinado à educação, as formas de privatização da gestão escolar e o adoecimento entre profissionais da educação; e

3. Também financiada pela FAPESP, diz respeito às “Estratégias municipais da oferta da educação básica no estado de São Paulo”, coordenada pela Profª Drª Teise Garcia, da USP Ribeirão Preto.

E. Você possui uma pesquisa individual ou em equipe? Quem participa?
S. A pesquisa (a) é individual; a b) é composta por professores e pesquisadores de diversas universidades (Unesp, UERJ, UFBA, Instituto Federal, um doutorando da FE, uma supervisora de ensino da rede estadual paulista e estudantes da graduação que realizam seus estudos de Iniciação Científica; a c) é coordenada por uma colega do GREPPE da USP/Ribeirão Preto e participam Unicamp, Unesp e UFParaná.

E. Quando a pesquisa foi iniciada e qual a previsão de término/quando foi finalizada?
S. Um estudo foi finalizado em 2022, que se tornou minha tese de livre-docência, que analisou as formas de contratação de docentes no Brasil e França organizada em três níveis: macro, com dados de todos os estados e Distrito Federal, que focalizou não apenas os percentuais de contratos temporários, mas também os compromissos firmados nos Planos Estaduais de Educação em relação ao plano de carreira e contratação via concurso público e o mesmo na França; meso, analisei com maior profundidade o estado de São Paulo e a Ilha de França; e, por fim, no micro, a precariedade nas relações de trabalho praticadas na rede estadual na Região Metropolitana de Campinas e em Créteil, na França. No plano micro pude entrevistar docentes no Brasil e na França, cujos resultados indicaram que há maior incidência de docentes temporários nas localidades de baixa renda.

As pesquisas em desenvolvimento serão finalizadas: a referente às estratégias de privatização será finalizada em 2026 e as demais em 2028, ainda que sejam divulgados resultados parciais ao longo dos respectivos desenvolvimentos.

E.  Essa pesquisa está vinculada a algum programa de pós-graduação ou grupo de pesquisa?
S. Sim, todas ao Programa de pós-graduação da Faculdade de Educação da Unicamp.

E. Qual é o objetivo central da investigação?
S.
1. Profissão docente, profissão em/de risco? Distintos radicalismos nas escolas no Brasil, França e Alemanha”

Investigar as relações e as condições de trabalho de docentes da educação básica pública entre 2013 e 2026, em três países com histórias marcadas pelo avanço de expressões diversas do radicalismo, quais sejam: Brasil, França e Alemanha.

No Brasil pesquiso as escolas militarizadas, na França, a criação de programas cívico-militares com participação obrigatória de estudantes do Ensino Médio; e na Alemanha, a presença do autoritarismo nas escolas, via perseguição de docentes por parte das famílias.

2. O trabalho docente na educação básica nos entes federados brasileiros (2016-2026): uma década de precariedade?”

Analisar, em amplo espectro, a política educacional para a educação básica vigente no país no período compreendido entre 2016 e 2026. Visa-se, no plano macro, abranger todos os estados e o Distrito Federal; no meso, os municípios; e, por fim, na dimensão micro, escolas a serem selecionadas com base nos resultados das etapas anteriores.

As faces da política educacional são explicitadas nos objetivos específicos, que visam examinar nos entes federados: 
a) as dimensões econômica e orçamentária relacionadas à contratação de docentes;
b) as formas de contratação praticadas pelos entes federados junto a professores.as e gestores.as escolares e educacionais;

Nos estados de São Paulo e Bahia: os aspectos da privatização da educação básica no que diz respeito à gestão escolar, pós implementação da reforma do ensino médio; as características da reforma do ensino médio, com enfoque no quinto itinerário formativo, em particular as formas de privatização a ela vinculadas; as privatizações associadas às Parcerias Público-Privadas (PPPs), no que tange à divisão social do trabalho.

3. Estratégias Municipais para a Oferta da Educação Básica: Processos de Privatização no Estado de São Paulo (2008-2023)

Compreender e analisar as tendências de privatização da Educação Básica em redes municipais paulistas no período entre 2008 e 2023 por meio da atualização do Banco de Dados 9 sobre as diferentes formas de privatização apresentadas nos municípios paulistas, considerando-se as mudanças tecnológicas para elaboração e manutenção do banco de dados.

Objetivos específicos
a) Atualizar tecnicamente o Banco de Dados já constituído, posto que há mudanças tecnológicas e sua base migrou de instituição, alocando-se hoje na Unicamp;
b) Atualizar e mapear estratégias de privatização nos 645 municípios paulistas, a partir das três dimensões anteriormente descritas – oferta, currículo e gestão escolar e educacional.
c) Selecionar e construir a formas de interação entre usuários e Banco de Dados, a fim de viabilizar consultas com recortes diversos (porte populacional, dimensão e forma de privatização, IDHM, entre outros).
d) Análise das tendências de privatização segundo as dimensões e em cada uma das formas para o período selecionado;
e) Incorporar ao Banco de Dados as formas de contratação dos profissionais da educação nos municípios paulistas.

E. Que metodologia foi utilizada?
S. Nos estudos 1 e 2 são pesquisas qualitativas que englobam análise bibliográfica e documental, bem como a realização de entrevistas com profissionais da educação; na 3 é uma pesquisa qualitativa em sua dimensão exclusivamente documental a partir dos dados oriundos do Censo Escolar.

E. Quando surgiu a necessidade de investigar esse tema?
S. O tema trabalho sempre esteve presente na minha trajetória acadêmica. Estudo professores/as, diretores/as de escola e supervisores/as de ensino desde 2010. O interesse, além de atuar em uma faculdade de educação, se deu pelo fato de as políticas neoliberais afetarem as formas de contratação, pois estados e municípios aderem de forma crescente a uma lógica empresarial e, com isso, desvalorizam a profissão que tentam, mais recentemente, substituí-la por aplicativos.

E. Como essa pesquisa dialoga com os desafios atuais da educação no brasil?
S. Cada uma tem suas especificidades. O avanço dos contratos temporários e, portanto, a falta de estabilidade no emprego tem consequências diretas na qualidade da educação, dada a alta rotatividade de docentes que são substituídos ao longo do ano e, muitas vezes, sem a formação da disciplina que ministram, ou mesmo com formação em áreas que não contemplam a licenciatura; 

O trabalho coletivo é, no meu entendimento, fundamental para o avanço da qualidade da educação. 

A militarização das escolas é tema mais recente na educação brasileira e demonstra uma adesão calcada no regime militar e distante de todo o acúmulo a respeito às ciências da educação construídas não apenas no Brasil. Observa-se uma máxima nesse projeto de sociedade que a disciplina militar irá resolver problemas históricos da educação. Tenho constatado que estados e prefeituras selecionam escolas que já apresentam melhores resultados no IDEB para servirem de vitrine ao programa. Além disso, realizam uma “seleção”de estudantes com melhor desempenho e de docentes mais alinhados ao militarismo, ambas orientadas por formas de pressão e, mesmo, de assédio moral para o desligamento da escola.

E. Que autores ou teorias foram mais influentes na construção do seu trabalho?
S. A teoria marxista orienta minhas análises. As sociologias do trabalho e da educação sustentam as pesquisas em curso.

E. Quais foram os principais achados até agora?
S. São muitos: os dados do Censo Escolar indicam que no Brasil, em 2025, havia uma média de 51% de docentes vinculados às redes estaduais e Distrito Federal. O dado em si já é alarmante, mas se agrava ainda mais ao observarmos o estado do Acre com 84%, Espírito Santo 76%, Mato Grosso do Sul 73%, Santa Catarina e Mato Grosso 71%, Ceará 59%, Minas Gerais e Distrito Federal, ambos com 58%.

Ou seja, são estados que a educação pública está, essencialmente, nas mãos de docentes sem formação atestada por concurso público e que vivenciam contratos por tempo determinado. Não se trata aqui de criticar esses e essas professoras que, de fato, asseguram a concretização da educação, mas sim alertar para o fato da inconstância, da não adequação, muitas vezes, do/a docente à disciplina ministrada, sem contar na impossibilidade de realização de um trabalho coletivo na escola.  

No campo da militarização constata-se a “maquiagem” das escolas que está sendo feita por governadores e prefeitos, assim como um marketing junto às famílias que estão confundindo segurança no entorno da escola com a presença de práticas militares no interior das escolas, expressas em uso da farda, marcha militar entre outros aspectos. Do lado das condições de trabalho constata-se um ataque à liberdade de cátedra, orquestrado por famílias e apoiados pela gestão da escola, como observou-se no município de Ilhabela que culmina com afastamentos de docentes não alinhados ao Programa, com cenas explícitas de assédio moral.

Na França, berço da liberdade, igualdade e fraternidade indaga-se as razões pelas quais o Ministério da Defesa cria a presença obrigatória de estudantes do equivalente ao Ensino Médio a frequentarem aulas, palestras e atividades militares, em um contexto de guerras iminentes ao redor do mundo.

E. A pesquisa já gerou alguma publicação ou apresentação em eventos? Se sim, onde?
S. Sim, em vários países, inclusive.

E. Quais os próximos passos após a conclusão? Há desdobramentos previstos?
S. Eu procuro, além de divulgar em eventos científicos, discutir os resultados com os sindicatos.


FALANDO DE PESQUISA!
Tema: Trabalho docente
Entrevista realizada em: 19/03/2026
Publicado em: 13/04/2026
Pesquisador Entrevistado: Selma Borghi Venco
Entrevistador: Julia Santiago Carrion
Roteiro: Erika Blaudt e Lucas Ferreira
Produção executiva: Lucas Ferreira, Cláudia Reis e Julia Santiago Carrion
Direção: Nora Rut Krawczyk
Realização: CPDC – FE – Unicamp