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“PENSO, LOGO EXISTO”

VOCÊ JÁ PAROU PARA DUVIDAR DE TUDO? CONHEÇA O FILÓSOFO QUE FEZ ISSO E MUDOU O MUNDO

Tem datas que parecem combinadas por alguém com muito senso de humor. 

No dia 31 de março de 1596, nascia René Descartes, o filósofo que ensinou o mundo a questionar tudo. 

Nesse mesmo dia, em 1727, morria Isaac Newton, o cientista que superou algumas das ideias que Descartes havia construído. 

Coincidência? Talvez. Mas convenhamos: o universo opera em uma sincronia perfeita.

Agora, antes de você pensar “ah, mais um filósofo chato de quem vou ter que decorar o nome para a prova”, deixa eu te contar uma coisa: 

Descartes era o tipo de pessoa que dormia até ao meio-dia, tinha pavor da Inquisição e escrevia suas ideias escondido, com medo de ser preso. 

Parece mais interessante agora, né?

UM FILÓSOFO QUE DUVIDOU DE TUDO, INCLUSIVE DE SI MESMO

Imagina o seguinte: você acorda um dia e decide que tudo que aprendeu até hoje pode estar errado. 

Sua família, sua escola, seus livros, tudo. Não porque você ficou louco, mas porque quer ter certeza absoluta do que é verdade. 

Foi exatamente isso que Descartes fez em 1637, quando publicou o “Discurso do Método”.

Ele vivia numa época em que a Igreja Católica controlava o que as pessoas podiam ou não podiam pensar. 

Galileu, por exemplo, foi julgado e condenado em 1633 só porque defendeu que a Terra girava em torno do Sol, uma ideia que contrariava o que a Igreja ensinava. 

Descartes tinha um manuscrito parecido na gaveta e, quando soube do que aconteceu com Galileu, preferiu não publicar. Dava para entender.

Mas ele não desistiu. Continuou pensando, escrevendo e elaborando um método para chegar ao conhecimento verdadeiro sem depender de ninguém mandando acreditar em algo. 

Esse método tinha quatro passos simples: verificar tudo antes de aceitar como verdade; analisar o problema dividindo em partes menores; sintetizar, juntando as partes do mais simples ao mais complexo; e enumerar, revisando tudo para não deixar nada de fora. 

Quatro passos. Simples assim. Menos complicado que cancelar uma assinatura indesejada.

A FRASE MAIS FAMOSA DA FILOSOFIA, E O QUE ELA REALMENTE SIGNIFICA

“Penso, logo existo.” Você provavelmente já ouviu essa frase em algum lugar. Ela aparece em camisetas, tatuagens, memes. Mas o que Descartes quis dizer com isso de verdade?

A história é a seguinte: depois de duvidar de absolutamente tudo, chegou um momento em que ele se perguntou se havia algo que não dava para duvidar. E percebeu que sim: o próprio ato de duvidar. 

Porque para duvidar, alguém precisa estar lá pensando. Você não consegue duvidar do nada. Se você está duvidando, você existe. Simples, genial e perturbador ao mesmo tempo.

Em latim ficou assim: Cogito ergo sum. Virou uma das ideias mais discutidas nos últimos quatrocentos anos. Tudo por causa de um filósofo que resolveu questionar até a própria existência.

Tem outra frase dele que é menos famosa, mas que talvez faça ainda mais sentido para quem está estudando: “Daria tudo o que sei pela metade do que ignoro.” 

Reflita sobre isso. Um dos maiores pensadores da história dizendo que preferia saber mais do que já sabia a ficar satisfeito com o que conhecia. Esse é o espírito de quem realmente aprende de verdade.

POR QUE ISSO IMPORTA HOJE?

Vivemos num mundo onde aparecem na tela, todos os dias, centenas de informações, vídeos, notícias, opiniões. Algumas são verdadeiras. Muitas não são. E a maioria chega formatada de um jeito tão convincente que parece óbvia, sem precisar questionar.

Descartes viveu num mundo parecido com esse, guardadas as devidas proporções. 

As verdades chegavam prontas, vindas da autoridade religiosa, e questionar era perigoso. Ele decidiu que preferia duvidar a engolir certezas de olhos fechados. E essa decisão mudou o rumo do pensamento humano.

O método dele, verificar, analisar, sintetizar e revisar, é exatamente o que a gente chama hoje de pensamento crítico. 

É a base do que cientistas, jornalistas investigativos, juízes e qualquer pessoa que toma decisões sérias precisa fazer. Não é magia nem talento especial. É um hábito. Um hábito que Descartes transformou em filosofia há mais de trezentos e oitenta anos.

E NEWTON, O QUE TEM A VER COM TUDO ISSO?

Newton morreu no mesmo dia em que Descartes nasceu, 31 de março, com 131 anos de diferença. 

Historiadores chamam isso de coincidência. Quem gosta de mistério chama de destino. Mas o fato concreto é que Newton, usando muita matemática e observação, mostrou que algumas explicações de Descartes sobre como os planetas se moviam estavam erradas. 

Só que isso não apagou Descartes. O método que ele criou, essa forma sistemática de pensar e questionar, sobreviveu a Newton, sobreviveu à física quântica e continua vivo em qualquer laboratório, sala de aula ou redação de jornal onde alguém decide não aceitar a primeira resposta que aparece. 

Newton não destruiu Descartes. Usou Descartes para ir mais longe.

O QUE FICA

Descartes tinha uma crença simples e radical: que qualquer pessoa, usando a razão de forma honesta e sistemática, é capaz de chegar à verdade por conta própria. Sem precisar de uma autoridade dizendo o que pensar. 

Essa ideia, no século XVII, era revolucionária. Em 2026, continua sendo necessária.

Se você chegou até aqui nesse texto, já fez algo cartesiano sem perceber: escolheu ler, pensar e, quem sabe, questionar alguma coisa que antes aceitava sem pestanejar.

Descartes ficaria orgulhoso!

REFERÊNCIAS:

DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Coleção Clássicos).

NEWTON, Isaac. Princípios matemáticos da filosofia natural. Tradução de Alberto Oliva e Lúcia Brito. São Paulo: EDUSP, 2002.

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Aristeu Bento de Souza, é Mestrando em Educação na FE (NETSS – Grupo de Estudos Trabalho, Saúde e Subjetividade).

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