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FE Publica
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Lecionar Geografia é um eterno rasgar-se e remendar-se

Caminho pelos corredores do Instituto de Geociências da Unicamp com o peso de todos que hão de ser meus alunos, porém a quietude da noite com a angústia de ser um bom professor se misturam. Há um silêncio ensurdecedor crescente entre as teorias que devoro e o giz que, em breve, terá de riscar o horizonte de uma sala de aula. Refletir sobre minha formação é perceber que a Geografia que me habita ainda não encontrou a voz para falar com quem me espera do outro lado da lousa. Ao ler os artigos de Genylton Rocha (2001) e  de Maria do Socorro Diniz (1996), vejo que minhas angústias são estruturais, a primeira me conta a história de uma disciplina que lutou para existir e que aos poucos tem sido sufocada. Será que a geografia continuará a existir? Será que terei um emprego digno? Enquanto com a outra autora, encontro o meu medo concretizado, a matéria que lecionarei, ainda não a aprendi. Olho para trás e vejo que não aprendi o suficiente na escola e, agora, a universidade me ensina muito, mas sinto que não é sobre o que ensinarei no dia a dia. Minha professora diz que somos formados como pesquisadores para que possamos construir nosso próprio caminho, mas não poderíamos ter aprendido um pouco mais sobre os conteúdos da base?

 Sei operar softwares de geoprocessamento e discutir a produção do espaço, mas me sinto mudo ao imaginar o rosto de um aluno de sexto ano me perguntando por que o mundo é como é. Sinto o “baque” antes mesmo da primeira chamada, pois, ao me imaginar no cenário escolar, encontro seres humanos que são crianças, passando por muitas coisas, esperando respostas minhas que podem impactá-las de formas inimagináveis para mim.

A fragmentação que Rocha aponta na história da nossa formação parece se materializar no meu cotidiano. De um lado, a excelência técnica, Iniciação Científica me exigindo o domínio de dados, onde o cálculo estatístico e o fenômeno é uma mancha de pixel em uma tela de alta resolução. Por outro lado, a incerteza pedagógica, como transformar essa mancha fria em uma discussão calorosa tangenciando a vida do aluno? A insegurança nasce desse descompasso, saber investigar o mundo físico e as dinâmicas sociais, mas ainda estou aprendendo a investigar o encontro humano que ocorre quando o mapa é aberto sobre a carteira.

Pego-me pensando que talvez a lacuna entre o “saber geográfico” e o “saber ensinar” não é apenas uma falha individual, mas um reflexo da própria trajetória da disciplina no Brasil, marcada por uma fragilidades e falta de auto reconhecimento que ainda nos assombra, afinal, a Geografia acadêmica se esforçou para se legitimar através de um cientificismo rigoroso, enquanto o ensino básico, muitas vezes, foi relegado a uma reprodução acrítica de conceitos mastigados, porém, hoje, não sei bem se sei o que é a Geografia que tanto estudei, tampouco sei adequar o que sei para uma linguagem escolar.

Sinto, acima de tudo, um desamparo ético e administrativo. A universidade me ensinou a ler o relevo e a cidade, mas não me ensinou a ler a dor ou a burocracia do cansaço. Como reagir ao desrespeito que fere a autoridade? Como acolher um aluno que traz no corpo as marcas de um abuso? Como processar o luto e a culpa silenciosa diante de um suicídio que eu não soube prever? Somado a esse peso humano, há o peso do sistema: a sobrecarga sufocante, a falta de apoio de coordenações muitas vezes tão exaustas quanto nós, e a pressão da plataformização do ensino. Como ser um mestre mediador quando sou reduzido a um alimentador de sistemas e aplicativos que ditam o ritmo da minha aula? Sinto que me falta a falta de orientações para lidar com essas urgências, enquanto o mundo insiste em me desvalorizar antes mesmo de eu começar.

Compreendo que muito se aprende no cotidiano, no “chão da escola”, mas sinto que a universidade nos deixa órfãos de orientações mais explícitas. Sinto falta de ferramentas como a Comunicação Não-Violenta, que nos permitiria mediar conflitos e nos aproximar de alunos em sofrimento ou desrespeitosos sem cair em guerras de poder desgastantes. Além disso, diante de ambientes de trabalho desestruturados e sem apoio da gestão, precisamos aprender estratégias de articulação coletiva e limites terapêuticos; na Psicologia, ensina-se o manejo da carga emocional para não absorver a dor do outro, e sinto que o professor precisa desse mesmo anteparo para não ser esmagado pela precarização. Sem aprender a estabelecer essas fronteiras e a buscar redes de apoio entre pares, corremos o risco de sucumbir ao esgotamento ou de nos tornarmos apáticos aos dilemas humanos.

Minha Geografia ainda busca um lugar, seja na sala de aula ou fora dela, na gestão ou no ensino não-formal, na editoração (deveria ser mais explorada essas outras possibilidades). No fim, ser professor de geografia é esse eterno rasgar-se e remendar-se (parafraseando Guimarães Rosa);  não sei se consigo dar – em todo e qualquer espaço – o que essa vida quer de mim: coragem.

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Referências Bibliográficas

DINIZ, Maria do Socorro. A Geografia que a gente aprende não é a Geografia que a gente ensina. Revista Terra Livre, São Paulo, n. 17, p. 131-150, 2001.

ROCHA, Genylton Odilon Rêgo da. Uma breve história da formação do(a) professor(a) de Geografia no Brasil. Revista Terra Livre, São Paulo, n. 11, p. 151-163, 1996.

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Maike Martins, licenciando em geografia, aspirante à poeta

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