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Pesquisa

FE-Unicamp tem dois semifinalistas no Jabuti Acadêmico; finalistas serão anunciados em 27 de julho

Obras de Alexandro Henrique Paixão e Julio Cesar Francisco concorrem na categoria Educação e Ensino; pesquisas discutem a formação democrática e o direito ao conhecimento em contextos marcados pela desigualdade.

Uma obra recupera as experiências de educação de adultos conduzidas por Raymond Williams na Inglaterra do pós-guerra. A outra investiga empiricamente a formação oferecida a adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no Brasil. Separadas pelo tempo, pelo espaço e por seus objetos de estudo, as duas pesquisas convergem em uma pergunta fundamental: que educação uma sociedade democrática deve assegurar a seus cidadãos?

Essa questão levou dois pesquisadores vinculados à Faculdade de Educação (FE) da Unicamp à semifinal do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. Alexandro Henrique Paixão, professor da Faculdade, concorre com Raymond Williams e Educação, publicado pela Editora da Unicamp. Julio Cesar Francisco, pesquisador e professor credenciado na FE, foi selecionado por Pedagogia socialista: contribuições para a formação de jovens infratores, publicado pela Autores Associados.

Arte gráfica que mostra duas capas de livros, uma ao lado da outra.

As duas obras estão entre as dez semifinalistas da categoria Educação e Ensino. A terceira edição do prêmio, organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), recebeu 2.085 inscrições de obras acadêmicas, científicas, técnicas e profissionais. A lista será reduzida a cinco títulos no dia 27 de julho, às 15h30, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói. O anúncio também será publicado no site do Prêmio Jabuti Acadêmico.

Educação para uma democracia viva

Fotografia que mostra um homem sentado com expressão facial sorridente. Ele tem tom de pele bege claro, cabelo e barba grisalhos, usa óculos de grau e veste camisa branca xadrez. Fim da descrição.

Alexandro Paixão recebeu a notícia por meio de colegas do Departamento de Ciências Sociais na Educação (Decise) e, em seguida, pelas mensagens de professores e estudantes. “Foi uma grande surpresa e uma alegria também. O reconhecimento dos amigos, colegas e leitores é algo muito precioso”, afirma. Para ele, estar entre os semifinalistas de Educação e Ensino tem um significado especial, pois o livro nasceu de uma investigação sobre educação democrática desenvolvida ao longo de aproximadamente dez anos.

Embora Raymond Williams seja conhecido no Brasil como um dos principais nomes do marxismo cultural britânico e dos estudos culturais, sua atuação como professor de adultos ainda é relativamente pouco estudada. Antes de se consagrar como crítico e teórico da cultura, Williams trabalhou, entre 1946 e 1961, na educação de trabalhadores que não haviam tido acesso regular ao ensino universitário.

Paixão mostra que essa experiência ocupou um lugar central na formação do pensamento do autor galês. As aulas ministradas a adultos ajudaram a amadurecer reflexões posteriormente desenvolvidas em livros como Culture and Society, Communications, Keywords e The Country and the City. “O problema central de Williams é uma democracia educada. Essa é a revolução que ele almejava”, resume o pesquisador.

A investigação começou em 2014, quando Paixão ingressou na FE e recebeu financiamento da Fapesp. No ano seguinte, ele pesquisou o acervo de Williams no Richard Burton Archives, da Universidade de Swansea, no País de Gales. O contato com planos de aula, programas de curso e outros documentos pouco conhecidos permitiu reconstruir a dimensão pedagógica de uma obra geralmente lida apenas pelos campos da crítica cultural, da sociologia e dos estudos literários.

O trabalho envolveu uma rede de pesquisadores e estudantes da graduação e da pós-graduação, reunidos principalmente no Laboratório de Estudos de Cultura, História, Educação, Sociologia e Psicanálise (Lechesp). As pesquisas conduzidas na FE também deram origem a traduções ainda inéditas de obras de Williams, entre elas o romance Border Country e os livros Communications e Reading and Criticism.

Ao trazer esse legado para o presente, Paixão ressalta uma concepção de ensino que não separa formação intelectual e participação social. Williams defendia que a educação deveria preparar as pessoas para o trabalho, mas também para compreender o mundo e intervir nele. “Educar não é treinar para um emprego. Para Williams, a nação não é uma firma e, consequentemente, a educação não é um setor”, observa. Em sua leitura, uma democracia só se sustenta quando o acesso ao conhecimento crítico deixa de ser privilégio de poucos.

A instrução no centro da socioeducação

Fotografia que mostra um homem em pé com expressão facial sorridente. O homem tem tom de pele bege claro, cabelo e barba castanhos e veste camisa branca, blazer azul e gravata azul. Fim da descrição.

Julio Cesar Francisco também descreve como uma “surpresa muito positiva” a inclusão de Pedagogia socialista entre os semifinalistas. Para ele, a indicação reconhece uma trajetória de quase quinze anos que perpassa a graduação, o mestrado e o doutorado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e os estudos de pós-doutorado realizados na FE-Unicamp, sob supervisão do professor Dermeval Saviani.

O pesquisador estende o reconhecimento às universidades públicas, às agências de fomento — CNPq, Capes e Fapesp —, à Editora Autores Associados e aos profissionais e jovens que participaram das investigações. “A obra defende a necessidade de assegurar uma instrução de elevada ambição intelectual para todos os estudantes, inclusive aqueles oriundos das classes populares e em situação de conflito com a lei”, afirma.

O livro examina práticas socioeducativas em quatro contextos, três localizados no estado de São Paulo e um no Ceará. Segundo Francisco, a pesquisa encontrou instituições ainda marcadas por uma lógica que conjuga punição e repressão, adornadas por discursos humanistas-construtivistas. Mesmo quando os discursos oficiais valorizam conceitos como autonomia e protagonismo juvenil, a escolarização tende a ocupar uma posição secundária, quando não é totalmente suprimida. De fato, o contato dos adolescentes com professores, livros e conhecimentos científicos, artísticos, literários e filosóficos é mínimo.

É nesse ponto que o autor aproxima o debate sobre a Justiça Juvenil da pedagogia socialista e da Pedagogia Histórico-Crítica. Em vez de atividades destinadas apenas a ocupar o tempo ou controlar comportamentos, ele propõe que o ensino sistemático e o acesso ao patrimônio cultural da humanidade sejam colocados no centro das medidas socioeducativas.

Francisco contesta a ideia de que autonomia, criatividade e consciência crítica possam surgir espontaneamente. Para ele, essas capacidades dependem de um trabalho pedagógico intencional e da mediação qualificada de professores e pedagogos sociais. “A instrução escolar constitui o coração do projeto socioeducativo”, afirma. Nessa perspectiva, superar a punição não significa diminuir a exigência formativa, mas oferecer aos jovens os instrumentos intelectuais necessários para compreender a realidade e agir sobre ela.

A passagem pela FE permitiu ao pesquisador aprofundar os fundamentos teóricos do trabalho e conduzir investigações em um campo de difícil acesso, cercado por restrições relacionadas ao sigilo judicial. A publicação do livro, contudo, não encerrou o percurso. Francisco pretende agora estudar práticas de ensino capazes de favorecer uma escolarização bem-sucedida de adolescentes egressos da Justiça Juvenil que frequentam os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio na rede pública.

Expectativa para a próxima etapa

A presença dos dois pesquisadores na semifinal evidencia também a amplitude das investigações desenvolvidas na FE. De um lado, o trabalho de arquivo recupera uma tradição intelectual que vinculava cultura, educação e participação democrática. De outro, a pesquisa de campo interroga práticas contemporâneas que ainda restringem o acesso ao conhecimento justamente aos jovens que mais dependem da escola pública.

Em 27 de julho, a categoria Educação e Ensino passará de dez para cinco finalistas. Os vencedores serão conhecidos em 11 de agosto, em cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Cada autor premiado receberá a estatueta do Jabuti e R$ 5 mil; as editoras vencedoras também receberão a estatueta.

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