A Faculdade de Educação da Unicamp recebeu, no dia 6 de abril, a palestra “Acessibilidade Afetiva: estereótipos de incapacidade, fadiga do acesso e inclusão”, ministrada pela professora Sônia Caldas Pessoa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Promovida pelo Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem da Unicamp, o [ea]², como parte da 2ª Semana da Acessibilidade da Unicamp, a atividade propôs uma reflexão sobre os obstáculos éticos, políticos e práticos ainda presentes na inclusão de pessoas com deficiência no ensino superior.
Ao longo da palestra, Sônia Caldas Pessoa chamou a atenção para a necessidade de ampliar a compreensão mais tradicional de acessibilidade, frequentemente associada apenas a recursos técnicos, adaptações físicas ou cumprimento formal da legislação. Em sua abordagem, a noção de acessibilidade afetiva remete a um conjunto de relações, atitudes e disposições institucionais que permitem à comunidade universitária se deixar afetar pelas situações de exclusão e agir coletivamente para transformá-las. Mais do que uma resposta individual de empatia, trata-se, segundo a pesquisadora, de reconhecer que a inclusão exige políticas, normativas e, ao mesmo tempo, compromisso cotidiano com práticas de acolhimento e colaboração.

![Fotografia que mostra um homem segurando um microfone e falando olhando para frente. O homem tem tom de pele bege, cabelo e barba castanhos e curtos, veste camisa vermelha e preta e usa óculos de grau. O ambiente é uma sala com paredes claras e parcialmente iluminada. Há uma projeção de imagem atrás do homem com o título "Ações [ea]²" e imagens coloridas. Fim da descrição.](https://portal.fe.unicamp.br/wp-content/uploads/sites/66/2026/04/IMG_2252-1024x683.jpg)
Entre o direito e o desgaste cotidiano
Um dos pontos centrais da discussão foi a crítica aos estereótipos de incapacidade que ainda marcam a experiência de estudantes com deficiência nas universidades. A professora observou que esses estereótipos se manifestam quando se duvida da capacidade acadêmica dessas pessoas, quando sua presença é tratada como exceção heroica ou quando lhes são negadas condições adequadas de participação. Em vez de favorecer a inclusão, essas atitudes reforçam formas estruturais de capacitismo e produzem o que ela denomina fadiga do acesso: o desgaste permanente de quem precisa lutar todos os dias para entrar, permanecer e ser reconhecido no espaço universitário.
A docente também destacou que a permanência de estudantes com deficiência não pode depender de esforços extraordinários para acessar direitos já assegurados em lei. Nesse sentido, criticou a naturalização de discursos que transformam essas trajetórias em histórias de superação individual, apagando o caráter estrutural das barreiras enfrentadas. Pessoas com deficiência, afirmou, não devem ser submetidas a um cansaço excessivo para ocupar lugares que também lhes pertencem de direito.
Inclusão como cultura institucional
Ao tratar das responsabilidades da comunidade universitária, Sônia Caldas Pessoa defendeu que a inclusão se constrói por meio de uma combinação entre hospitalidade, acolhimento e discurso. Para ela, docentes, técnicos administrativos e estudantes têm papel decisivo na criação de ambientes mais inclusivos, seja pela escuta das singularidades, seja pela oferta de condições adequadas de participação ou pelo cuidado com a linguagem utilizada no cotidiano acadêmico. Quando demandas previstas em lei precisam ser constantemente justificadas ou reivindicadas, observou, o ambiente universitário deixa de reconhecer direitos e passa a operar como se estivesse concedendo favores.
A palestrante ressaltou ainda que os desafios não se resolvem apenas com boa vontade individual. Entre os pontos mais sensíveis para que a inclusão deixe de ser um princípio abstrato e se torne uma prática cotidiana, ela destacou a necessidade de política institucional pró-ativa, com planejamento, recursos e envolvimento amplo da comunidade universitária. Também apontou a importância de rever processos de entrada e permanência, bem como de ampliar ações permanentes de formação, campanhas e oficinas capazes de enfrentar a resistência cultural ainda existente em torno do tema.
Para além do cumprimento formal da lei
Ao final, Sônia Caldas Pessoa defendeu que as universidades assumam a inclusão de pessoas com deficiência como prioridade em seus planos de desenvolvimento institucional. Para a pesquisadora, já não basta cumprir a legalidade mínima: é preciso reconhecer os processos históricos de exclusão e agir de forma vigilante contra práticas capacitistas, inclusive aquelas que se apresentam sob aparência de inclusão. Nessa perspectiva, a acessibilidade não pode ficar restrita a núcleos especializados ou ações isoladas, mas precisa atravessar os pilares da universidade pública — ensino, pesquisa e extensão — de modo a garantir uma permanência que não seja marcada pela exaustão.
Realizada no Salão Nobre da FE, a atividade reforçou a importância de pensar a acessibilidade como compromisso institucional e coletivo. Ao integrar a programação da 2ª Semana da Acessibilidade Afetiva da Unicamp, a palestra contribuiu para ampliar o debate sobre inclusão no ensino superior e para reafirmar que uma universidade pública comprometida com a diversidade precisa enfrentar não apenas barreiras materiais, mas também barreiras simbólicas, culturais e relacionais.


