No sábado, 22 de agosto, milhares de jovens passaram pelo campus de Barão Geraldo para conhecer cursos, laboratórios, bibliotecas, espaços de convivência e projetos desenvolvidos pela Universidade. A 21ª edição do programa Unicamp de Portas Abertas (UPA) integrou as comemorações dos 60 anos da instituição e recebeu mais de 64 mil participantes, de acordo com a estimativa preliminar divulgada pela organização.
Na Faculdade de Educação (FE), a programação reuniu 21 atividades diferentes ao longo do dia. Exposições, oficinas, jogos, experimentos, instalações, rodas de conversa e apresentações culturais permitiram que os visitantes conhecessem não apenas os cursos de Pedagogia e de Licenciatura Integrada em Química e Física, mas também as muitas questões que perpassam o trabalho realizado na unidade: formação docente, inclusão, acessibilidade, relações étnico-raciais, educação ambiental, leitura crítica, cultura, ciência e participação estudantil.


Entre as pessoas que trabalharam na UPA estava Quésia dos Santos, estudante de Pedagogia. Um ano antes, porém, ela havia chegado à Universidade em outra situação: era aluna do ensino médio e visitava o campus enquanto ainda tentava decidir que curso seguiria.
“Só de conhecer o espaço da universidade, eu já me encantei”, recorda. Naquela ocasião, as conversas com estudantes e as informações recebidas durante a visita contribuíram para que ela escolhesse o curso de Pedagogia. “Aí clareou o caminho. Falei assim: ‘Ah, Pedagogia na Unicamp é o que eu quero.’”
Em 2026, Quésia viveu a UPA do outro lado: como estudante da Unicamp, recebeu visitantes que enfrentavam dúvidas semelhantes às que ela própria teve há pouco tempo.
“Eu recordo o meu tempo de vestibulanda, com aquela incerteza, e agora, sabendo que estou aqui, nesta universidade de prestígio, poder auxiliá-los, tirar dúvidas e trazer também essa mensagem de conforto, de que eles podem estar ocupando esse espaço, é muito empolgante para mim”, afirma. Para ela, participar do evento também expressa um princípio fundamental de sua formação: “Eu acho que esse é o papel da Pedagogia, né? Fazer a educação ser para todos”.
Uma faculdade vista por quem a vive
O protagonismo dos estudantes ficou evidente na exposição FE em Foco: uma viagem fotográfica pela Faculdade de Educação, instalada no hall de entrada da Biblioteca Professor Joel Martins. A mostra reuniu 30 fotografias em tamanho A3 sobre o cotidiano acadêmico, científico e cultural da FE. As imagens registravam eventos, atividades de pesquisa, reuniões, visitas de delegações internacionais e momentos de convivência na unidade. Capturadas e selecionadas por seis estudantes de graduação que atuam como bolsistas de fotografia institucional em projeto apoiado pela Diretoria Executiva de Apoio e Permanência Estudantil (Deape), as fotografias foram apresentadas com créditos e descrições de imagem.


Durante a UPA, os próprios bolsistas conversaram com o público sobre as histórias por trás dos registros e realizaram a cobertura fotográfica do evento. A exposição permitiu, assim, que a faculdade fosse apresentada pelo olhar de quem acompanha diariamente seus espaços, seus encontros e suas transformações.
A participação discente também marcou a atividade Desbravando a Pedagogia, realizada em dois horários na sede do Centro Acadêmico da Pedagogia Marielle Franco. Inspirada nos ateliês Freinet, a atividade combinou experiências práticas e uma roda de conversa sobre o curso, criando um espaço no qual os visitantes puderam fazer perguntas diretamente a quem vive a graduação.
As dúvidas sobre a formação e sobre a vida universitária estavam entre as principais motivações do público. Visitante da UPA pela segunda vez, Beatriz Nakasato destacou a possibilidade de encontrar informações que nem sempre estão disponíveis nas pesquisas feitas antes da visita. “Há bastante curiosidade, algumas coisas que às vezes a gente pesquisa, mas não acha. Aqui teve bastante coisa que elas conseguiram esclarecer”, conta.
Para Larissa Maitan, estudante do Colégio Rodin, de Indaiatuba, a visita teve um significado ainda mais pessoal. Ela pretende seguir a carreira docente e buscava compreender melhor como a Pedagogia prepara os futuros profissionais para o trabalho educativo com as crianças.
“Eu, na verdade, quero ser professora e queria saber como funciona o curso, como a gente consegue ter uma base, saber como funciona com as crianças”, explica. Depois de conhecer a FE, resumiu a experiência com entusiasmo: “Gostei demais. Nossa, é meu sonho.”
Além das conversas promovidas pelos estudantes, a atividade Os cursos de graduação da Faculdade de Educação: Licenciatura em Pedagogia e Licenciatura Integrada em Química e Física – formação de professores/as apresentou informações sobre as matrizes curriculares, os horários, o perfil profissional dos cursos e outros aspectos da graduação.
Educação, inclusão e acessibilidade
A diversidade da programação mostrou aos visitantes que a formação de professores envolve conhecimentos, experiências e responsabilidades que ultrapassam os limites de uma sala de aula.
Na oficina Educação Antirracista – significados e experiências pedagógicas, o público pôde conhecer a legislação relacionada à educação para as relações étnico-raciais e à história e cultura afro-brasileira e africana. A atividade também apresentou pesquisas sobre preconceito e discriminação racial nas escolas, inclusive na educação infantil, e discutiu as contribuições da literatura negro-afetiva para a construção de práticas pedagógicas antirracistas.
As atividades relacionadas à educação de surdos e à acessibilidade ocuparam diferentes momentos do dia. Em Libras e educação de surdos, os participantes receberam informações sobre a disciplina de Libras e aprenderam o alfabeto manual. No período da tarde, a Oficina de Libras, ministrada com a participação de estudantes e docentes da FE, ampliou esse contato inicial.


A programação incluiu ainda o Quiz Interativo e Trilha da Inclusão: Jogando e Aprendendo sobre Acessibilidade, realizado em duas sessões, e a Oficina de Alfabeto Acessível, também oferecida em dois horários. Jogos de tabuleiro, cartas, perguntas, respostas e experiências práticas transformaram conceitos relacionados à inclusão em situações de aprendizagem e sensibilização.
Em Infância em Movimento: Descobrindo o Mundo Além das Telas, os visitantes foram convidados a brincar, movimentar-se, explorar e imaginar, numa oficina voltada à valorização de experiências infantis que não dependem de dispositivos eletrônicos.
Já Trajetórias: do sonho ao projeto de vida propôs uma reflexão sobre os caminhos pessoais, acadêmicos e profissionais dos participantes, aproximando a escolha de um curso universitário das histórias, expectativas e condições concretas de cada estudante.
Ciência, ambiente, leitura e conhecimento
A programação da FE também evidenciou as relações entre educação, pesquisa científica e os grandes desafios contemporâneos.
Na Exposição de experimentos, o público conheceu fenômenos físicos e químicos por meio de demonstrações realizadas ao longo do dia. As Experiências do PIBID Interdisciplinar: Educação em Saúde e Educação Ambiental na escola apresentaram oficinas e dinâmicas produzidas no encontro entre estudantes de Pedagogia, Enfermagem e Biologia.
A instalação interativa Que futuro estamos construindo?, por sua vez, convidou os visitantes a refletirem sobre os problemas ambientais e sociais do presente e sobre os futuros que podem ser construídos por meio da articulação entre ciência, ambiente e educação.
A atividade Como ler criticamente um texto promoveu uma prática coletiva de leitura de texto acadêmico, enquanto a oficina Aprendendo a ler imagens: o lugar do pensamento visual na Educação discutiu a linguagem visual e apresentou instrumentos para uma interpretação crítica das imagens que circulam na sociedade.
Na Biblioteca Professor Joel Martins, o circuito Portas Abertas para o Conhecimento: Exposição, Imagem e Acesso no Tour da Biblioteca mostrou ao público que uma biblioteca universitária é também um espaço de pesquisa, preservação, acesso à informação e formação cultural.
No Jardim dos Saberes Ancestrais, dinâmicas, painéis e rodas de conversa apresentaram as atividades da Comissão de Integração e Bem-Estar Social da FE (Cibes). No estacionamento da unidade, a ação Conhecendo a LHU divulgou o trabalho da Liga das Humanas da Unicamp, suas modalidades esportivas, campeonatos e treinos.
Rap, arte e educação
As relações entre cultura, expressão artística e processos educativos também tiveram destaque. Pela manhã, o Salão Nobre recebeu a atividade Rap e educação: as Batalhas de Rima como processo de educação, acompanhada de uma exposição de arte com Amanda Bolonha.
À tarde, o Teatro de Arena da Praça da Paz foi ocupado pela Batalha de Rima, disputada na modalidade de 45 segundos. Participaram Poeta Gabriela, do Paraná; Afronta MC, rapper e nome conhecido do freestyle; Kriollo MC, referência das batalhas de Monte Mor; e Nivii 019, vencedor da edição de aniversário da Batalha do Cálice. A atividade levou para o centro da programação uma manifestação cultural baseada na oralidade, na escuta, na improvisação e no confronto criativo de ideias.






Ao articular a discussão sobre o rap como processo educativo com a experiência concreta de uma batalha, a programação aproximou a reflexão acadêmica da produção cultural contemporânea.
Tornar a universidade uma possibilidade concreta
Para muitos visitantes, a UPA representou o primeiro contato direto com uma universidade pública. Essa aproximação orientou o trabalho de Mariana Lopes, de 20 anos, estudante de Letras da Unicamp e coordenadora e professora do cursinho popular Responsa, localizado na região do Campo Grande, em Campinas.
Em seu primeiro ano com uma turma de pré-vestibular, o cursinho organizou a visita de seus estudantes e providenciou ônibus, alimentação e almoço. Segundo Mariana, muitos alunos vivem numa região periférica e dificilmente teriam condições de participar do evento por conta própria.
“Muitos vieram pela primeira vez e estão amando a experiência de ter contato de fato com uma universidade, de não ficar algo tão distante do que é passado para eles”, relata. Depois da visita, alguns estudantes disseram que sentiram ainda mais vontade de ingressar no ensino superior.
A experiência de Quésia dos Santos mostra que esse desejo pode se transformar rapidamente em presença. Em apenas um ano, ela passou de visitante indecisa a estudante da Unicamp, recebendo novos jovens e ajudando-os a reconhecer a Universidade como um espaço que também pode lhes pertencer.
Ao abrir suas salas, biblioteca, jardins, laboratórios e espaços de convivência, a FE não se limitou a apresentar informações sobre seus cursos. Apresentou também diferentes maneiras de compreender a educação e permitiu que os visitantes conversassem com estudantes, professores e profissionais capazes de dar uma dimensão concreta à vida universitária.
Na avaliação de Mariana Lopes, a organização contribuiu para que o grande número de visitantes pudesse circular e participar das atividades: “Eu pensei que teria muita concentração de gente. Vejo que as pessoas conseguiram fazer funcionar bem”.
Mais do que ajudar na escolha de uma carreira, a UPA reduz a distância, muitas vezes material e simbólica, entre a universidade e os estudantes que desejam chegar até ela. Na Faculdade de Educação, essa aproximação ganhou a forma de fotografias, experimentos, oficinas, jogos, rodas de conversa, literatura, arte e rima — diferentes caminhos para que os visitantes pudessem conhecer a FE e começar a imaginar a si mesmos dentro dela.
